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Em “For Profit”, o papel das empresas, seus vícios e qualidades

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Em “For Profit”, o papel das empresas, seus vícios e qualidades

A sociedade empresária (corporation) é uma dessas invenções que se tornaram parte essencial da vida social. Está no salário creditado no fim do mês e na tarifa bancária debitada; na prateleira do supermercado e na fatura do cartão; no plano de saúde, no combustível do carro, no aplicativo de carona e no galpão logístico que faz a compra online chegar no dia seguinte. Do indispensável ao supérfluo, quase tudo passa por atividades coordenadas na forma de empresas.

Nem sempre, porém, para o bem.

A mesma organização que produz riqueza também pode estar por trás do cigarro, do ultraprocessado, da rede social desenhada para capturar atenção e monetizar dados, ou de cadeias produtivas marcadas por degradação ambiental.

Tudo isso decorre de um arranjo institucional simples e poderoso: pessoas reúnem capital e trabalho para criar uma entidade autônoma, dotada de personalidade jurídica e responsabilidade própria. Com a limitação da responsabilidade dos sócios ao capital investido, a corporation tornou-se um dos motores do capitalismo moderno – e um de seus principais focos de controvérsia, vista por alguns como instrumento de exploração e concentração de riqueza e, por outros, como base da inovação e da prosperidade material.

Em For Profit: A History of Corporations, William J. Magnuson recorre à história para examinar o papel das grandes corporações na sociedade. O autor mostra como esse arranjo institucional foi crucial para o progresso econômico e para grandes empreendimentos coletivos, mas também como pode concentrar poder e produzir iniquidades sociais. (Compre aqui)

O resultado da obra é uma visão ponderada a respeito do capitalismo, sem idealismo cego ou ingenuidade: Magnuson reconhece a importância essencial das corporações para a vida moderna, sem ignorar suas vicissitudes e pontos passíveis de aperfeiçoamento.

O autor escreve com autoridade tanto teórica quanto empírica. Magnuson é professor de Corporate Law na Texas A&M School of Law, mas antes trabalhou como advogado no Sullivan & Cromwell, um dos mais renomados escritórios white shoe de Nova York.

Na apresentação do livro, ele conta que a ideia da obra nasceu da prática: em grandes transações, viu como essas organizações, ao coordenarem capital, trabalho e renda, afetam milhões de vidas. Percebeu também que este poder é tão central quanto mal compreendido, inclusive por quem dele se beneficia.

A experiência pregressa do autor como advogado em Wall Street ajuda a explicar o tom do livro. Como já escrevemos aqui no Brazil Journal, a tradição norte-americana mostra que os advogados empresariais e os grandes escritórios tiveram papel central na busca de um equilíbrio entre a contenção dos excessos do capitalismo da Gilded Age e a preservação da liberdade de iniciativa que marcou a virada regulatória da Progressive Era.

No primeiro capítulo, intitulado “Corpus Economicus”, o livro nos remete à “pré-história” do capitalismo para mostrar que a associação voltada ao lucro não nasce com o mercado moderno, e sim na antiguidade, com a própria necessidade de organizar poder, risco e capital.

Entram em cena as “Societates Publicanorum” da antiga República de Roma entre os séculos III e I a.C., empresas privadas encarregadas de funções públicas como arrecadação de tributos, obras e abastecimento militar, o que já revela a ambivalência central ao livro: a empresa surge como instrumento de utilidade coletiva que, se atendida, pode ser explorada economicamente por grupos de particulares.

O desvio dessa finalidade, contudo, se provou deletéria à República Romana, e é apontado como um dos elementos para sua queda.

No segundo capítulo, intitulado “The Bank”, o livro se desloca para a Florença renascentista dos séculos XIV ao XV e mostra um dado especialmente interessante: a ascensão do Banco Medici em um ambiente no qual a usura (considerada como qualquer cobrança de juros) era condenada pelo direito canônico medieval.

Como, no mútuo, todo acréscimo ao principal podia ser tratado como juros ilícitos, os Medici passaram a estruturar suas operações não como empréstimos, mas como contratos de câmbio entre moedas e praças distintas, em que a remuneração do capital aparecia formalmente não como juros, mas como variação cambial.

Foi essa sofisticação jurídica e financeira que ajudou a viabilizar o comércio europeu, financiar a cultura renascentista e a Igreja Católica, consolidando a Casa dos Medici como a maior potência bancária de seu tempo.

Hoje, em escala muito maior e sob outra arquitetura jurídica, os bancos exercem função igualmente central no capitalismo: ao conceder crédito, registram em seus balanços um ativo contra o tomador e, em contrapartida, creditam um depósito em sua conta, criando assim “dinheiro novo”, que passa a circular na economia.

Já no capítulo “The Stock”, o autor nos leva à Inglaterra elisabetana, retratando a história da East India Company para mostrar como a colocação pública de papéis da companhia ampliou a capacidade de mobilizar capital e distribuir riscos, impulsionando o mercantilismo da era das grandes navegações.

Por outro lado, as ações negociadas na Exchange Alley, em Londres, também inauguraram distorções que atravessariam os séculos, como o insider trading e a manipulação de mercado.

Em “The Monopoly”, Magnuson nos remete às gigantes ferroviárias Union Pacific e Central Pacific Railroad, incentivadas por subsídios e concessões de terra previstos no Pacific Railway Act de 1862, para lembrar que a construção do mercado nacional americano não foi obra exclusiva da livre concorrência, mas resultado de uma colaboração tensa entre o capital privado e o poder público.

O experimento integrou o território, mas também gerou um poderoso monopólio ferroviário dominado pelos chamados robber barons.

Em “The Assembly Line”, a Ford Motors encarna a ambivalência do industrialismo: em sua Highland Park Plant, a linha de montagem revolucionou a produtividade industrial do século XX, barateando o automóvel, e o famoso salário de cinco dólares por dia ampliou a renda operária – mas ao custo de repetição extenuante, disciplina rígida e tensões permanentes entre trabalhadores, administradores e acionistas.

O capítulo remete ainda ao célebre caso Dodge v. Ford Motor Co., julgado pela Suprema Corte de Michigan em 1919: era uma disputa movida pelos irmãos John e Horace Dodge, acionistas minoritários da companhia e fundadores da futura Dodge Brothers Company, e tornou-se o precedente que cristalizou a ideia de que a empresa deve ser administrada primordialmente no interesse de seus acionistas (o que, no caso, impediu Henry Ford de reinvestir os lucros em vez de distribuí-os aos investidores).

Em “The “Multinational”, a Exxon aparece como emblema da multinacional. Originária da cisão da Standard Oil determinada pela Suprema Corte em 1911, a companhia teve um papel econômico e geopolítico fundamental diante do embargo do petróleo de 1973-74.

O capítulo é feliz em captar dois lados da mesma moeda: de um lado, a capacidade dessas petroleiras de sustentar cadeias globais de suprimentos e amortecer uma crise energética que abalou os Estados Unidos e a Europa. De outro, o acúmulo de um poder de escala quase estatal nas mãos de multinacionais se mostra capaz de influenciar mercados, governos e até o debate público sobre os custos ambientais da própria energia fóssil.

Nos dois capítulos finais, o livro mostra como o poder corporativo assume formas novas sem perder sua vocação expansiva. Em “The Raider”, o foco recai sobre a era das aquisições hostis e a ascensão de fundos de private equity como o KKR. A lógica dos leveraged buyouts consistia em adquirir empresas com uma estrutura de financiamento apoiada em dívida, muito mais do que em capital, frequentemente com o uso de junk bonds – títulos de alto risco e alto retorno – e fazer com que a própria companhia adquirida suportasse esse endividamento para então extrair valor por meio de venda de ativos, reestruturações e cortes de custos.

Parte da atratividade vinha do chamado tax shield, isto é, do efeito tributário da dívida: como os juros pagos, diferentemente dos dividendos, são dedutíveis, o endividamento reduz a base tributável da empresa e amplia o retorno dos investidores. O modelo produziu operações altamente lucrativas, como no célebre caso da RJR Nabisco, mas também deixou um rastro de companhias excessivamente alavancadas, demissões em massa e pedidos de falência.

Por fim, em “The Startup”, o foco recai sobre a trajetória do Facebook, retratando o crescimento acelerado das Big Techs, a cultura do “move fast and break things”, a monetização de informação e dos dados e, como efeito colateral, custos sociais que já não podem ser tratados como externalidades marginais. O mérito deste capítulo está em sugerir, sem panfleto, que a corporação nunca foi moralmente neutra: ela organiza a produção, mas também distribui, concentra e às vezes desfigura o poder.

Amparado por esse vasto percurso histórico, Magnuson propõe alguns princípios para o aprimoramento institucional das sociedades empresárias, seja por uma atuação mais responsável de executivos e acionistas, seja por marcos regulatórios capazes de reconciliar o interesse privado com o bem comum.

A ideia de fundo remete à própria gênese da corporation: antes de se tornar uma máquina de lucro, ela surgiu como instrumento de coordenação social para viabilizar empreendimentos que servissem à vida econômica e à utilidade coletiva.

Apesar das iniquidades que tantas vezes produz, a empresa continua a refletir uma das mais altas capacidades humanas: a de associar pessoas, recursos e inteligência em torno de fins que, isoladamente, dificilmente poderiam ser alcançados.

 

Caio Malpighi é advogado tributarista no Vieira Rezende Advogados e especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Direito Tributário, onde também é professor-assistente.




Caio Malpighi




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Trader com TDAH perde R$ 1 milhão e vira o jogo com robôs

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Trader com TDAH perde R$ 1 milhão e vira o jogo com robôs

No trading, a técnica costuma ocupar o centro da conversa. Mas, na prática, nem sempre é ela que define o resultado. Em um ambiente em que segundos podem separar o ganho da perda, conhecer os próprios limites pode ser tão decisivo quanto dominar uma estratégia. Para Rafael Covas, empreendedor do setor farmacêutico e trader, essa descoberta veio da forma mais dura: depois de uma perda de quase R$ 1 milhão, ele entendeu que, no seu caso, operar bem significava parar de insistir no controle manual e aceitar a automação como parte da sobrevivência no mercado.

Durante a Expert Trader XP, Covas concedeu entrevista ao InfoMoney e detalhou como esse episódio redefiniu sua forma de operar.

Sua trajetória no mercado começou de modo conservador, com foco em renda fixa, e depois avançou para operações mais dinâmicas, especialmente no mercado de opções. A migração para o day trade trouxe ganhos, mas também expôs fragilidades importantes no campo emocional.

Leia mais: Expert Trader XP redefine o padrão do trading no Brasil e projeta 2ª edição para 2027

TDAH e decisão crítica

Com o tempo, os fatores comportamentais passaram a pesar cada vez mais em sua performance. Nesse processo, o diagnóstico de TDAH, somado ao hiperfoco e à ansiedade, interferia diretamente nas decisões operacionais. “Com TDAH e ansiedade, eu não consigo fazer trade manual”, autoavaliou-se.

Esse padrão se materializou em um episódio que mudou sua trajetória. O evento ocorreu em um momento de alta volatilidade e terminou em uma perda expressiva.

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“Eu tomei um stop [loss] de quase um milhão de reais.”

— Rafael Covas, empreendedor do setor farmacêutico e trader

Segundo ele, o episódio aconteceu em uma data simbólica, o que tornou a lembrança ainda mais marcante. A memória daquele momento reforça a intensidade vivida, embora parte dos detalhes tenha se perdido. “Eu me lembro que o operador me ligou, era mais ou menos umas quatro horas da tarde”, explica.

A dinâmica do mercado naquele dia ampliou ainda mais o prejuízo, com movimentos abruptos em um intervalo muito curto. A velocidade da oscilação praticamente impediu qualquer reação. “Foi um candle de 80 pontos em um minuto”, conclui.

O impacto emocional da perda provocou uma reflexão imediata sobre sua forma de operar. O episódio marcou uma ruptura definitiva com o operacional manual. “Mas assim, isso é um sentimento ruim, né? Você sai meio angustiado, fica meio triste”, relata.

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A partir dali, mudar de abordagem deixou de ser escolha e virou necessidade. A automação apareceu como consequência direta desse aprendizado. “Dinheiro não aceita desaforo, né?”, conclui.

Leia também: “Trade mais difícil é o certo”, diz Tom Hougaard, autor de O Melhor Perdedor Vence

Leitura e consistência

Mesmo com o uso de robôs, a leitura de mercado continua no centro da estratégia. A automação, na prática, não elimina a necessidade de interpretação; ela exige ainda mais entendimento de cenário. A escolha do ativo e do momento operacional segue influenciando diretamente o resultado. “Eu conheço toda a estrutura do robô”, afirma.

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O cenário atual, inclusive, tem orientado suas preferências operacionais, especialmente em ambientes de maior instabilidade. A seletividade passou a ser parte essencial da busca por consistência. “Eu gosto muito de operar o dólar, porque o índice está um pouco impossível de operar”, observa.

Essa busca por previsibilidade o levou a priorizar ativos com comportamento mais técnico. Já o índice, na sua leitura, tem ficado mais sujeito a ruídos externos e políticos. “O dólar se torna mais consistente”, explica.

No fim, a adaptação constante ao mercado se consolidou como um dos principais diferenciais da estratégia com automação. Mais do que usar robôs, o resultado depende da capacidade de interpretar o contexto e fazer os ajustes necessários. “Eu tenho que saber qual robô eu vou utilizar para poder obter lucros e ganhos”, conclui.

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Leia também: Como traders de tesouraria tomam decisões e controlam riscos com bilhões em jogo

Automação como virada

Depois da perda milionária e do impacto emocional que ela provocou, a automação deixou de ser apenas uma alternativa e passou a ser uma necessidade operacional. A tecnologia virou uma forma de reduzir o peso das emoções nas decisões. “Eu gosto mais da automação porque como é um robô, ele consegue me dominar mais”, afirma.

A escolha por utilizar robôs já validados também está ligada à sua rotina como empresário. Com outras demandas profissionais, eficiência operacional passou a ser prioridade. “Como eu não tenho tempo por ter um negócio próprio, eu acabo utilizando robôs terceiros”, observa.

Ainda assim, ele estruturou uma operação relevante dentro do mercado. Hoje, Covas opera cerca de meio milhão de contratos futuros por mês, usando majoritariamente robôs validados.

“Hoje, com o robô, eu opero em torno de 500 mil contratos por mês.”

— Rafael Covas, empreendedor do setor farmacêutico e trader

Há, porém, um ponto que chama atenção em sua abordagem: ela vai na contramão do que muitos desenvolvedores costumam recomendar.

Enquanto parte do mercado defende que o operador não interfira no robô, ele adapta os parâmetros conforme o cenário.

“Eu posso aumentar o stop, diminuir o stop, dizer quantos pontos eu quero que ele entre”, explica.

Esse controle exige leitura constante de mercado e decisão ativa. A automação, portanto, não elimina o operador — apenas redefine seu papel. “Não dá para deixar ele rodando 24 horas.”

Leia também: Expert Trader XP: militar vence torneio de trading e revela estratégia decisiva

Do investimento ao trade

A entrada no mercado aconteceu de forma estruturada, com prioridade para segurança antes da tomada de mais risco. A evolução foi gradual até o contato com operações mais sofisticadas.

Segundo ele, o começo foi na renda fixa e, durante o período da pandemia, passou a pesquisar sobre mercado de opções.

Os primeiros resultados positivos reforçaram o interesse pelo trading ativo. Segundo ele, observar outros operadores ampliou sua visão sobre o mercado.

“No mercado de opções, eu consegui ter bons êxitos em relação às opções e comecei a ver outras pessoas operando opções e comecei a gostar”, relembra.

A transição para o day trade, porém, trouxe um desafio central: o controle emocional.

A execução, segundo ele, passou a ser afetada diretamente pelo comportamento. “O trader tem que ter um emocional muito grande.”

A dificuldade em respeitar o timing e a disciplina operacional passou a ser recorrente. O excesso de entradas, por sua vez, comprometia os resultados.

“Eu queria entrar toda hora e não era essa a intenção”, admite.

Leia também: IA e traders: ameaça ou aliada? Veja como aproveitar na prática a tecnologia

Carteira e alocação

Mesmo com a evolução para operações mais dinâmicas, a construção da carteira manteve uma lógica conservadora e equilibrada.

O trading passou a ocupar apenas uma parte do capital, enquanto a maior parcela permaneceu alocada em ativos de longo prazo. “Hoje 80% do meu investimento é a longo prazo”, afirma.

A diversificação também se tornou um pilar importante da estratégia, combinando diferentes classes de ativos para reduzir risco. Segundo ele, a exposição ao mercado foi construída de forma gradual e consistente ao longo do tempo.

“Minha carteira contém renda fixa, algumas outras rendas um pouco mais agressivas, ações, ouro, alguma coisa de criptomoeda também.”

Assim, o trading segue como uma frente complementar dentro da carteira, com foco maior em oportunidades de curto prazo. “E 20% eu utilizo para o trader”, reume.

Confira mais conteúdos sobre análise técnica no IM Trader. Diariamente, o InfoMoney publica o que esperar dos minicontratos de dólar e índice. 

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Justiça cria outra jabuticaba: o ‘haircut’ energético

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Justiça cria outra jabuticaba: o ‘haircut’ energético

Após diversos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial de comercializadoras de energia nos últimos tempos, o mais recente caso no setor está gerando uma preocupação ainda maior – com temores de um potencial impacto estrutural no mercado.

A Tradener, uma das pioneiras do segmento, conseguiu na Justiça não só proteção contra seus credores, como é tradicional nessas ações, como também autorização para mudar o horário de entrega da energia em seus contratos com clientes.

O ajuste na hora pode parecer um detalhe, mas torna-se chave num momento em que os preços no mercado de energia de curto prazo têm variado até 2.700% dentro de um mesmo dia.

Os valores do megawatt-hora podem ir desde um piso de R$ 57, principalmente durante o dia (com excesso de geração solar), até picos de R$ 1,6 mil por MWh no começo da noite (com demanda em alta e sem a ajuda do Sol).

A Tradener disse no processo que enfrenta uma crise financeira decorrente principalmente dessa “volatilidade acentuada” dos valores da eletricidade. 

O problema maior, fontes do mercado disseram ao Brazil Journal, é que a juíza autorizou a Tradener a entregar energia de acordo com a modulação da geração solar – em outras palavras, só quando a luz do sol estiver brilhando.

Na prática, isso significa que a trading atenderá seus clientes nas horas do dia em que o MWh está barato, deixando-os sem suprimento no pico de demanda (e preços) da noite.

“É um haircut energético com aval do Judiciário,” resumiu o executivo de outra trading.

“Eles venderam uma Ferrari, que é ter energia às 19h, às 20h. E estão entregando um Fusca, que é a energia ao meio-dia,” disse uma outra fonte.

“É surreal se essa decisão se mantiver. Vai gerar precedente para todo mundo.” 

A decisão judicial deve impactar ainda mais a liquidez no mercado de comercialização de energia, que já está menor após os problemas recentes de algumas tradings.

Os polêmicos preços do mercado spot de energia são definidos por modelos matemáticos que levam em conta questões como a oferta de geração, a demanda e o nível dos reservatórios nas hidrelétricas.

A volatilidade aumentou com a entrada de fontes renováveis, como eólicas e solares, cuja produção é intermitente, variando com o vento e o sol.

Mas uma mudança nos parâmetros de risco utilizados no cálculo dos preços, no ano passado, fez com que diversos participantes do mercado começassem a questionar o modelo, que consideram “descalibrado.”

O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), presidido pelo Ministério de Minas e Energia, precisa decidir até junho se o atual modelo para os preços será mantido em 2027, ou se haverá ajustes. 

A cautelar obtida pela Tradener, que garante proteção judicial por 60 dias, deve esquentar ainda mais essa discussão no setor.




Luciano Costa




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Por que a Aegea está demorando em publicar seu balanço

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Por que a Aegea está demorando em publicar seu balanço

Os bonds da Aegea Saneamento estão sob pressão nas últimas semanas depois que a companhia adiou a publicação de seu balanço do quarto tri múltiplas vezes — levantando especulações no mercado e gerando o rebaixamento de sua nota de crédito pelas agências de rating

A situação tem atraído atenção para um dos maiores players de infraestrutura do Brasil num momento em que a Aegea se prepara para um IPO na próxima janela de mercado. 

A companhia — que é controlada pelo grupo Equipav e tem entre seus acionistas o GIC, com 34% do capital, e a Itaúsa, com 13% — também é uma das empresas avaliando a privatização da Copasa.

Pessoas a par do assunto disseram ao Brazil Journal que os adiamentos do balanço têm a ver com a KPMG, que audita a companhia há dois anos. 

A auditoria mudou recentemente sua interpretação sobre diversos temas contábeis da DRE da empresa — o que levou à reabertura dos balanços da companhia desde 2020. 

Uma dessas fontes disse que o impacto contábil dessas revisões é na “casa dos bilhões”, mas que não há nenhum efeito caixa, sendo questões “puramente contábeis.”

Segundo esta fonte, as revisões envolvem questões como “o reconhecimento de receita em algumas concessionárias, os provisionamentos em outras, e a forma como a empresa contabilizava os juros da outorga.”

Essa fonte disse ainda que, financeiramente, a companhia está numa posição “muito sólida,” com mais de R$ 5 bilhões no caixa da holding e sem grandes vencimentos no curto prazo.

As incertezas dos múltiplos adiamentos do balanço geraram efeitos nocivos para o crédito da companhia. 

A S&P e a Fitch rebaixaram recentemente a nota da Aegea para níveis especulativos (junk) e colocaram a empresa em observação para possíveis novos rebaixamentos. 

A S&P também alertou que a Aegea tem até hoje, dia 10, para publicar seus balanços, sob pena de declaração de um evento de default em algumas de suas debêntures, o que por sua vez poderia acionar cláusulas de cross-default nos bonds listados no exterior.

Uma equipe de contabilidade da KPMG está alocada na Aegea, correndo contra o tempo para entregar os balanços ainda hoje, disse uma das fontes.

As debêntures que seriam impactadas por esse evento de default somam ao redor de R$ 500-700 milhões. Uma das alternativas seria a Aegea usar seu caixa para quitar essas dívidas antes que o vencimento antecipado seja declarado (evitando o cross-default), disseram pessoas a par dos planos da companhia.

A KPMG, que auditou os balanços do Banco Master até dezembro de 2024, está sob escrutínio por não ter sinalizado nenhum problema nos números, o que levou a um maior envolvimento da matriz na operação brasileira. É este cenário que parece ter levado a empresa a ser mais conservadora na auditoria dos balanços de seus clientes, segundo uma das fontes. 

O sócio responsável por auditar o balanço da Aegea foi substituído logo após a emissão do último bond da companhia, em setembro, quando a Aegea captou US$ 750 milhões com um green bond

Os bonds da Aegea com vencimento em 2036 — que são os mais líquidos — estão sendo negociados hoje perto de 70% do valor de face. No fim de março, eles eram negociados a 92%. Já os títulos com vencimento em 2029 e 2031 foram negociados hoje perto de 80% do valor de face. 




Pedro Arbex




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