Benito Beretta acredita e promove a aprendizagem experiencial, coletiva e prática. Na Hyper Island, uma instituição global focada em pensamento inovador e desenvolvimento de líderes e equipes, sua visão como Managing Director da companhia nas América busca inspirar profissionais a desenvolverem uma mentalidade de constante reaprendizado. Algo essencial na transformação digital que vivemos.
A Consumidor Moderno solicitou uma entrevista sobre Inteligência Artificial (IA) e profissionais de tecnologia (Chief Digital Officer, ou CDO). Como previsto, a conversa foi além do esperado.
AI shaming: quando eficiência parece falsidade
Consumidor Moderno: Benito, com o avanço da IA, a relação entre a área de tecnologia com outras áreas de uma empresa se tornou mais complexa. Qual sua visão sobre esse aspecto cultural e organizacional hoje?
Benito Beretta: Estamos diante de um paradoxo cultural: as empresas estão fascinadas com o potencial que a IA traz, mas a cultura não é sobre tecnologia; sempre foi sobre seu uso. As tecnologias mudam, mas o comportamento humano continua sendo o sistema operativo mais difícil de atualizar – e a IA não vai mudar isso. Mas, ela pode provocar algumas dinâmicas intrigantes e divertidas na minha opinião.
Veja só! Há pouco tempo, aconteceu de uma colega que respeito muitíssimo se negar a ler um texto meu, alegando que eu tinha escrito com IA e que preferia meu texto em ‘portunhol’, e com erros, ao todo ‘perfeitinho’ feito com IA. Fiquei dividido entre rir e pensar.
Essa é a fronteira simbólica do nosso tempo: quando a eficiência começa a parecer falsidade. Eu tinha escrito o texto original, e sinceramente achei que não estava claro. Sou uma pessoa que as vezes fala de forma complexa, então, pedi a IA para me trazer clareza ao texto. E claro que, por isso, senti na pele uma espécie de “AI shaming”,aquela vergonha de usar IA mesmo quando ela é útil – por medo de parecer preguiçoso o inautêntico. E aí você tem um outro ângulo antropologicamente curioso: esse novo tipo de culpa profissional faz com que muita gente brilhante se esconda com o uso da IA, como se fosse um pecado moderno.
Resumindo, não acho que a IA vai mudar a cultura das empresas, ou seja, os valores, normas e práticas compartilhadas. Mas, a cultura da empresa vai influenciar como ela usará a IA. O uso dela vai ser o espelho dos valores da empresa. Portanto, pode ser um uso tóxico ou um uso construtivo.
Alfabetização tecnológica e sensibilidade humana
CM: Quais habilidades você considera essenciais para que o C-Level de tecnologia possa não apenas acompanhar, mas liderar esse processo de inovação com IA dentro das organizações?
Liderar com IA é muito mais que entender códigos ou a tecnologia em si. Já passamos por isso em cada inovação tecnológica. Precisamos entender como isso tudo irá afetar as dinâmicas das pessoas e dos negócios no futuro. Precisamos pensar usando cálculo numérico, pensamento de variadas ordens e pensamento sistémico. Assim, os C-Levels em tecnologia precisarão mesclar alfabetização tecnológica com sensibilidade humana.
O melhor modelo que conheço para entender esse impacto é o modelo de KSMM (Knowledge, Skills, Mindset e Meta Learning). Nele, uma competência é formada por 4 níveis: Conhecimento, Habilidades, Mentalidade é Meta Aprendizagem.
Sugiro dividir o impacto de IA em 3 topologias de empresas: Produtividade, Criatividade e Humanidade. Produtividade sem humanidade gera desengajamento. Criatividade sem eficiência pode não escalar. Humanidade sem tecnologia corre o risco de ficar obsoleta. Além disso, vamos a precisar de uma habilidade nova, que chamo de “Autenticidade Assistida”. Ou seja, usar a IA para expandir o pensamento, sem perder a autoria.
“A IA vai escalar sinais emocionais. Mas só nós humanos imperfeitos, frágeis e falíveis, conseguimos escalar significados.”
Benito Beretta, Managing Director da Hyper Island nas Américas.
IA: Expandir o pensamento sem perder a autoria
CM: Nesse cenário no qual a IA, a ética e a sensibilidade humana se tornam estratégicas para organizações, quais os desafios mais complexos que você antecipa para a função de um Chief DigitaI Officer (CDO) nos próximos cinco anos?
O principal desafio será combinar três assuntos aparentemente desconexos: inteligência sistêmica, empatia estratégica e coragem ética. Nessas três áreas, existe um elemento em comum que é o fator humano, o “ruído”. As empresas, pressionadas por eficiência, podem tentar amputar o ruído humano, a fricção humana. Mas, como dizia Shannon o pai da transformação, não há aprendizado sem ruído. O CDO do futuro vai ter que proteger o “ruído” como um ativo estratégico, da dúvida, da imperfeição, da hesitação. Se a IA for usada como extensão cognitiva, e não substituto, ela pode restaurar o hábito de pensar, questionar, sintetizar. Voltar a criar sinapses em vez de só apertarmos “enter”.
CM: Muito obrigado pela entrevista, Beni! Alguma consideração final?
O futuro da IA não será definido pelo que conseguimos ensinar às máquinas, mas pelo que conseguimos lembrar sobre nós mesmos como humanos, com compaixão, curiosidade e coragem. E isso, meu amigo, ainda não tem algoritmo que copie.
Os novos skills do futuro profissional de tecnologia
A seguir, Benito Beretta destaca os skills do profissional de tecnologia do futuro – baseado nos três horizontes de IA: Produtividade, Criatividade e Humanidade. Ao final, ele traz uma lista de KSMM (Knowledge, Skills, Mindset e Meta Learning).
O futuro profissional de tecnologia, a partir de 3 horizontes de IA:
KSMM (Knowledge, Skills, Mindset e Meta Learning)
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A Cacau Show anunciou o lançamento de uma bebida de chocolate servida em copo temático dos Ursinhos Carinhosos. O produto estará disponível nas lojas da rede que oferecem serviços de cafeteria e passa a integrar o portfólio de itens voltados a presentes e experiências.
O lançamento inclui 10 modelos de chaveiros surpresa colecionáveis. O consumidor pode escolher a bebida de chocolate nas versões quente ou fria, servida em copo exclusivo dos Ursinhos Carinhosos. O modelo do chaveiro de pelúcia é aleatório, compondo a experiência de compra.
“Com a proposta oferecida pelo Copo Surpresa Ursinhos Carinhosos, a Cacau Show reforça sua aposta em produtos que unem memória afetiva, design lúdico e experiência, ampliando o portfólio de itens colecionáveis e fortalecendo o vínculo emocional com os consumidores”, afirma Lilian Rodrigues, diretora de marketing da Cacau Show.
O copo descartável é personalizado com ilustrações dos Ursinhos Carinhosos. Os chaveiros foram desenvolvidos para uso em bolsas, mochilas, chaves e roupas. Ao todo, são 10 modelos diferentes disponíveis para coleção.
O preço sugerido ao consumidor é de R$ 49,99. O valor inclui a bebida de chocolate clássico com chantilly e o chaveiro surpresa de pelúcia acondicionado no copo personalizado.
Chegamos ao fim de mais uma NRF! E se os primeiros dias da edição 2026 nos deram as ferramentas para entender como a nova jornada do varejo se inicia – a inteligência artificial (IA) como nosso potente motor e o propósito humano como nossa bússola – o último dia de evento nos forçou a encarar a realidade do mapa dessa jornada: estamos prestes a navegar por um terreno desconhecido, esburacado e, em muitos pontos, traiçoeiro. E o maior perigo pode não estar lá fora, mas dentro do nosso próprio tanque de combustível.
O terreno externo é, sem dúvida, desafiador. As palestras sobre o cenário macroeconômico pintaram um quadro de incertezas políticas, geográficas e tarifárias que tornam a previsibilidade de resultados um exercício de futurologia. Contudo, a transformação mais radical do ambiente é o próprio consumidor. Ele não é mais um passageiro passivo; agora, ele é empoderado pelo seu co-piloto, a IA, utilizando-a ativamente em sua jornada de descoberta e compra. Os velhos mapas de comportamento de consumo estão tornando-se obsoletos. Estamos, de fato, desbravando uma estrada que nunca foi percorrida.
E é exatamente quando mais precisamos de precisão para navegar neste novo mundo que nos deparamos com o grande paradoxo revelado nos corredores da feira, especialmente no pavilhão de startups. O que vi foi uma avalanche de soluções prometendo usar IA para “limpar”, “organizar” e “melhorar” os dados das empresas. À primeira vista, parece uma solução bem-vinda. Mas, na verdade, é o sintoma de uma doença grave: os dados da maioria dos varejistas não são confiáveis.
Aqui reside o paradoxo que pode comprometer toda a revolução da IA antes mesmo que ela comece. Há anos pregamos que não se faz IA de qualidade sem dados de qualidade, sob o risco do clássico “garbage in, garbage out” (se entra lixo, sai lixo). Agora, o mercado nos oferece a própria IA como remédio para a má qualidade dos dados dos quais ela mesma precisa se alimentar para funcionar. É como tentar usar um motor que falha para refinar o combustível adulterado que o está fazendo falhar. O risco de apenas amplificar erros, aprofundar vieses e tomar decisões ainda piores, mas em uma velocidade assustadora, é grande.
A conexão entre esses dois pontos — o terreno externo incerto e o combustível interno duvidoso — é o insight mais crítico desta NRF. A complexidade do novo consumidor exige decisões ágeis e hiperpersonalizadas que só a IA pode entregar. Mas como nosso potente motor de IA poderá nos guiar com segurança por um terreno desconhecido se o combustível que o alimenta (nossos dados) é de baixa qualidade?
Portanto, o encerramento da NRF 2026 não é um ponto final, mas um chamado urgente à ação. A tarefa mais importante para o varejista hoje não é sair em busca do algoritmo mais avançado. É voltar para casa e fazer uma auditoria rigorosa no seu “tanque de combustível”. A verdadeira revolução da IA no varejo começará não com a compra de uma nova tecnologia, mas com o compromisso inflexível com a governança e a qualidade dos dados na sua origem.
É preciso encarar a reforma não como um obstáculo, mas como a oportunidade definitiva para digitalizar sua operação. Transforme o desafio em vantagem competitiva. O futuro da cadeia da moda pertence àqueles que combinam criatividade com eficiência – e a eficiência, no cenário atual, é sinônimo de tecnologia integrada e inteligente.
Leia também: NRF 2026: varejo deixa de ser apenas ponto de venda para se tornar o centro de um ecossistema
*Por Elói Assis, diretor-executivo de produtos para Varejo da TOTVS
O varejo chega a 2026 em um contexto em que decisões estratégicas baseadas apenas em intuição perdem espaço para operações orientadas por dados. Com consumidores mais conectados e um ambiente competitivo, a capacidade de transformar informações em ações concretas no ponto de venda (PDV) passa a ser um fator central para crescimento e rentabilidade.
De acordo com o relatório From Data Overload to Data Driven Decisions in Retail, da KPMG, 54% dos varejistas que adotaram práticas estruturadas de análise de dados registraram aumento de pelo menos 10% no lucro operacional. O estudo aponta que eficiência e rentabilidade estão cada vez mais associadas ao uso de dados qualificados, inteligência artificial e análises preditivas.
Para Tiago Cabral, CEO da Núcleo, agência de marketing de incentivo e promocional, o avanço depende de uma mudança na forma como as empresas utilizam informações. “Os dados só têm valor quando se transformam em decisões práticas. O segredo está em traduzir métricas em ações que gerem impacto direto no PDV e, consequentemente, em vendas”.
Segundo o executivo, três pilares são fundamentais para converter dados em resultados no varejo: planejamento orientado por dados, automação da execução no PDV e monitoramento em tempo real.
No planejamento, o uso de dados históricos, comportamento de compra, jornada do consumidor e sazonalidade permite definir metas mais precisas e reduzir desperdícios. “O planejamento orientado por dados dá clareza sobre onde investir, como se comunicar e o que priorizar em cada ponto de venda. Quando você entende o comportamento do shopper a partir de dados reais, passa a atuar de forma estratégica, antecipando oportunidades e evitando decisões baseadas apenas em feeling”, explica Cabral.
Ele destaca que a segmentação de PDVs com base em performance e perfil de público aumenta a assertividade das campanhas. “Quando os dados mostram, por exemplo, que determinadas regiões têm maior conversão de um tipo específico de produto ou ativação, é possível otimizar investimentos e personalizar ações com muito mais precisão. Isso muda completamente a eficiência das campanhas”.
Relatório da KPMG indica que empresas que estruturam seus dados e integram analytics ao planejamento podem reduzir em até 20% os custos com ativações ineficientes. “Planejar com base em dados transforma o marketing em uma área de inteligência. É o que garante que cada ação tenha propósito, retorno mensurável e gere impacto real na ponta. Dados não são apenas números, são a base da performance moderna”, afirma Cabral.
O segundo pilar envolve a automação da execução no PDV. Segundo a Mordor Intelligence, o mercado global de automação para varejo deve crescer de US$ 17,46 bilhões em 2024 para US$ 37,38 bilhões em 2029, com taxa anual de 14,66%. Para o executivo, a automação reduz falhas operacionais e amplia a escala das campanhas.
“A automação é hoje um divisor de águas para marcas que querem escalar resultados sem perder o controle de execução. Automatizar não é apenas digitalizar tarefas, mas transformar a forma como o PDV opera. Quando os processos são integrados por sistemas inteligentes, cada loja passa a agir como uma extensão da estratégia, e não como um ponto isolado”, afirma.
De acordo com Cabral, plataformas automatizadas permitem ativar campanhas a partir de dados em tempo real, considerando variáveis como estoque, comportamento local de compra e horários de maior conversão. “Se um produto tem alta saída em uma região específica, é possível ajustar comunicações e ofertas instantaneamente, otimizando o investimento e ampliando o retorno”.
O monitoramento em tempo real completa o modelo. Segundo a TOTVS, a análise de dados em tempo real acelera a digitalização dos pontos de venda e viabiliza decisões rápidas. Relatórios da Retail Media News indicam que plataformas de retail media exigem dashboards em tempo real para acompanhamento de vendas, impressões e engajamento.
“A capacidade de monitoramento muda radicalmente a gestão de campanhas. Analisar em tempo real significa transformar dados em ação imediata. Não se trata apenas de ter indicadores disponíveis, mas de conseguir reagir à performance de cada loja e de cada campanha quase que instantaneamente”, afirma Cabral.
Segundo o executivo, dashboards integrados permitem identificar tendências, ajustar ofertas e medir com precisão o retorno sobre investimento. “Com dados imediatos, o marketing deixa de ser apenas analítico e se torna operacional e preditivo, transformando a performance em resultados concretos no ponto de venda”, conclui.