O fechamento efetivo do Estreito de Ormuz por mais de 30 dias consolida o maior choque energético desde a crise do petróleo de 1973.
Trata-se de um evento com implicações profundas para o mercado global, mas com efeitos particularmente relevantes para o GNL.
A interrupção prolongada dos fluxos provenientes do Golfo Pérsico, especialmente do Catar, retira do mercado cerca de 12,8 milhões de toneladas por ano por um período estimado entre três e cinco anos. Em um ambiente já tensionado desde 2022, essa ruptura redefine o equilíbrio global do gás natural.
O GNL, que já operava com margens de segurança estreitas, agora passa a funcionar sob um regime de escassez estrutural. A diferença em relação a choques anteriores está na baixa capacidade de resposta no curto prazo.
Ao contrário do petróleo, cuja oferta pode ser parcialmente ajustada via estoques estratégicos ou redirecionamento de fluxos, o gás liquefeito depende de uma cadeia rígida, intensiva em capital e com ciclos longos de investimento. A perda de volumes relevantes do Catar não pode ser rapidamente compensada, e isso amplia a pressão sobre preços e disponibilidade.
Esse contexto ajuda a explicar a magnitude da reação do mercado. O GNL internacional já registra elevações entre 40% e 100%, refletindo não apenas a redução física da oferta mas também a incorporação de um prêmio de risco mais duradouro. A lógica de formação de preços deixa de ser exclusivamente marginal e passa a refletir a disputa por segurança de suprimento. Em termos práticos, quem consegue pagar mais garante acesso à molécula.
Para o Brasil, os impactos são relevantes. Mesmo importando GNL majoritariamente dos EUA, estamos expostos à formação de preços global. A origem da carga não protege o consumidor doméstico da volatilidade internacional. O primeiro efeito aparece no despacho térmico, especialmente nas usinas contratadas nos Leilões de Reserva de Capacidade.
O LRCAP 2026 contratou aproximadamente 19 GW de potência, com cerca de 80% desse volume associado a usinas a gás natural.
Do ponto de vista sistêmico, o instrumento é correto e necessário, pois responde à necessidade crescente de lastro em um sistema com maior participação de fontes intermitentes. Mas o momento atual também expõe uma fragilidade importante: a dependência crescente do GNL importado em um cenário de elevada instabilidade global.
Essa dependência se traduz diretamente em custo. Com o gás mais caro, o custo marginal de operação das térmicas sobe de forma expressiva, pressionando tarifas e ampliando o risco de despacho prolongado. Em paralelo, o Brent acima de US$ 90 o barril pressiona o diesel e a gasolina, com efeitos diretos sobre inflação, logística e atividade econômica.
Outro ponto sensível está nos fertilizantes. O gás natural é insumo essencial para a produção de amônia e ureia, e a alta de cerca de 50% nesses produtos já indica um risco concreto para a próxima safra. Em um País que ainda depende de importações relevantes nesse segmento, a escalada de preços tende a impactar custos agrícolas e cadeias produtivas associadas.
Diante desse cenário, a discussão deixa de ser apenas conjuntural e passa a exigir respostas estruturais. A diversificação das fontes de suprimento ganha centralidade. O gás argentino, via Bolívia, surge como alternativa relevante, oferecendo uma solução on-grid, menos exposta à volatilidade do mercado global e com maior previsibilidade de custos.
No ambiente doméstico, projetos como a Rota 3 e o desenvolvimento da área de Raia reforçam a importância de ampliar a produção nacional. A expansão da infraestrutura de escoamento e processamento é fundamental para reduzir a dependência externa e aumentar a resiliência do sistema e reduzir a reinjeção. Ainda assim, são soluções que exigem tempo, previsibilidade regulatória e coordenação de investimentos.
No setor elétrico, cresce também a importância de soluções complementares. O avanço de sistemas de armazenamento, especialmente baterias, aliado à expansão de fontes renováveis, pode reduzir a necessidade de despacho térmico em momentos críticos. O objetivo não é substituir o gás, mas otimizar seu uso, reservando-o para situações em que sua flexibilidade é realmente imprescindível.
Mesmo com essas alternativas, o curto prazo exige medidas mais imediatas. A criação de uma reserva estratégica nacional de GNL pode ser uma resposta relevante. Neste ambiente de volatilidade recorrente, a capacidade de armazenar volumes e suavizar choques pode ser determinante para a estabilidade do sistema.
Além disso, ganha força a necessidade de implementar mecanismos de hedge para os contratos de gás associados ao LRCAP. A exposição direta ao preço spot internacional amplia a volatilidade de custos e dificulta o planejamento. Estruturas de proteção de preço podem trazer maior previsibilidade para geradores e consumidores, reduzindo riscos financeiros em cenários adversos.
Estamos em meio a uma mudança clara de paradigma. O GNL deixou de ser apenas uma solução operacional para flexibilidade do sistema e passou a ocupar uma posição central na segurança energética. Essa transição exige uma abordagem mais integrada, que combine diversificação de fontes, expansão de infraestrutura e instrumentos de gestão de risco.
O fechamento de Ormuz não é apenas um evento isolado, mas um sinal claro das fragilidades de um sistema global altamente interdependente. Para o Brasil, a principal lição está na necessidade de alinhar expansão com resiliência. A utilização do gás natural continuará sendo essencial, mas sua incorporação precisa vir acompanhada de uma estratégia robusta de mitigação de riscos.
Sem esse ajuste, o País corre o risco de transformar uma solução técnica eficiente em um vetor de vulnerabilidade econômica. A agenda energética precisa evoluir, incorporando não só crescimento e expansão mas também segurança, previsibilidade e capacidade de resposta a choques externos cada vez mais frequentes.
Adriano Pires é fundador do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE).
Operadores do mercado financeiro se preparam para uma abertura de semana instável, diante da continuidade do impasse no Estreito de Ormuz, que volta a elevar a incerteza que Wall Street vinha tentando deixar para trás após uma semana que levou o índice S&P 500 a um recorde e impulsionou o petróleo de volta à faixa de US$ 90 por barril.
O Irã alertou ao longo do fim de semana que embarcações que se aproximarem da via marítima “sob qualquer pretexto” serão tratadas como violação do cessar-fogo. A Guarda Revolucionária abriu fogo contra navios comerciais, deixando operadores de petroleiros à espera de definições de Teerã.
As ações endureceram um impasse que parecia aliviar na sexta-feira (17), quando sinais de distensão sustentaram uma alta generalizada de ativos de risco. A agência semioficial Tasnim informou que o país não participará de uma segunda rodada de negociações com os Estados Unidos em Islamabad nesta semana enquanto o bloqueio naval americano permanecer em vigor, embora mensagens continuem sendo trocadas por intermediários.
O presidente Donald Trump, que na sexta-feira (17) indicou que um acordo estava praticamente fechado, elevou o tom até domingo (19), ao ameaçar destruir todas as usinas de energia e pontes do Irã caso as negociações fracassem. A mudança abrupta reforça o quanto a alta recente dos mercados foi sustentada mais por expectativa do que por uma resolução concreta.
O S&P 500 registrou a terceira semana consecutiva de ganhos superiores a 3% e caminha para o maior avanço mensal desde 2020. Na sexta-feira (17), o dólar chegou a devolver integralmente os ganhos acumulados desde o início do conflito. O petróleo Brent caiu, enquanto os títulos do Tesouro americano avançaram. A negociação de ações, Treasuries e petróleo nos Estados Unidos é retomada com mais intensidade às 18h de domingo (19), no horário de Nova York.
“Parece que os investidores podem ter comemorado cedo demais”, afirmou Martin Hennecke, chefe de consultoria de investimentos para Ásia e Oriente Médio da St. James’s Place. Segundo ele, os desdobramentos do fim de semana “podem levar à devolução de parte dos ganhos recentes no curto prazo”.
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Nas primeiras negociações na Ásia nesta segunda-feira (20), o dólar indicava alta frente a pares relevantes, enquanto o dólar australiano liderava as perdas entre moedas mais sensíveis ao risco.
Os riscos inflacionários seguem elevados e não devem se dissipar com facilidade, mesmo que o frágil cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã seja estendido além do prazo previsto para terça-feira (21). Empresas já vêm repassando custos mais altos aos consumidores, observou Hennecke, citando o índice preliminar de gerentes de compras (PMI) da S&P Global nos Estados Unidos. Esse movimento tende a corroer posições em caixa e renda fixa, ao mesmo tempo em que reforça o argumento por manutenção de investimentos em ações, mesmo em meio à volatilidade.
O Estreito de Ormuz permaneceu, na prática, fechado durante grande parte das sete semanas de conflito. O petróleo ainda se mantém significativamente acima dos níveis anteriores à guerra, e bancos centrais já foram forçados a rever planos de cortes de juros, um impacto que não deve ser revertido rapidamente, mesmo com eventual acordo.
“Embora o mercado acionário dos Estados Unidos tenha atingido um novo recorde, os riscos aumentam a cada revés nas negociações para reabrir o Estreito de Ormuz”, disse Matt Maley, estrategista-chefe da Miller Tabak + Co. “Estamos chegando a um ponto em que não são apenas os preços mais altos que geram pressão, mas também a escassez que começa a surgir.”
Apreensão de navio
O vice-presidente JD Vance, o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner devem chegar a Islamabad na noite de segunda-feira (20) para negociações que, segundo o governo americano, seguirão os termos apresentados na semana passada. O bloqueio naval dos Estados Unidos permite a saída do Golfo Pérsico de navios com cargas não iranianas, mas impede embarcações que partiram de portos do Irã, distinção que Teerã utiliza para endurecer sua posição.
No domingo (19), Trump publicou na rede Truth Social que um navio da Marinha dos Estados Unidos interceptou uma embarcação de carga com bandeira iraniana, “abrindo um buraco na casa de máquinas”, e que fuzileiros navais assumiram o controle do navio.
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“Nossa posição sempre foi a de que precisamos ver a retomada efetiva do tráfego pelo Estreito de Ormuz”, afirmou Sarah Hunt, estrategista-chefe da Alpine Woods Capital Investors. Segundo ela, enquanto isso não ocorrer, os mercados devem permanecer voláteis, embora a semana passada tenha indicado alguma aproximação de solução.
Hunt avaliou que investidores podem relevar o choque no setor de energia caso lucros corporativos e consumo se mantenham resilientes, especialmente nos Estados Unidos.
Impactos de longo prazo
O mercado de títulos nunca incorporou totalmente a expectativa de paz. Os rendimentos dos Treasuries de dois anos subiram desde o início do conflito, à medida que investidores reduziram apostas em cortes de juros pelo Federal Reserve neste ano.
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É no mercado de petróleo que a divergência entre preços e realidade física se mostra mais evidente. A queda registrada na sexta-feira (17) embutia uma normalização do cenário, mas rotas marítimas seguem afetadas, tarifas de transporte de petroleiros permanecem elevadas e os estoques foram reduzidos, condições que, segundo analistas, podem levar semanas para serem normalizadas. Antes da guerra, cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo passavam pelo Estreito de Ormuz.
O indicador de risco entre mercados do Bank of America caminhava para a segunda maior queda mensal já registrada, atrás apenas da recuperação inicial após a pandemia. Gestores sistemáticos que estavam posicionados na venda de ações foram forçados a inverter posições e recomprar ativos. Parte desse movimento, segundo estrategistas, reflete o receio de ficar de fora de uma alta, comportamento reforçado no ano passado, quando investidores que apostaram contra as ameaças tarifárias de Trump sofreram perdas com a reversão do mercado.
Com os eventos do fim de semana evidenciando que o conflito segue em aberto, a recente onda de apetite por risco tende a enfrentar desafios, afirmou Elias Haddad, chefe global de estratégia de mercados da Brown Brothers Harriman. Ainda assim, ele disse que a instituição mantém a avaliação de que, embora o choque energético ainda não tenha se dissipado, o pior momento provavelmente já passou.
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“A abordagem dos Estados Unidos de abrir a navegação para todos ou fechar para todos no Estreito de Ormuz tende a acelerar a reabertura dessa via estratégica, já que o impacto econômico compartilhado aumenta os incentivos para uma solução diplomática”, afirmou Haddad. “Nesse contexto, o fim de março provavelmente marcou o ponto mais baixo do sentimento de risco, e as expectativas para juros dos bancos centrais ainda podem retornar parcialmente aos níveis anteriores ao conflito.”
O Ibovespa entrou em movimento corretivo após renovar máxima histórica em 199.354 pontos, enquanto o dólar futuro mantém tendência de baixa e completa sequência negativa relevante. Já nos Estados Unidos, Nasdaq Composite e S&P 500 seguem sustentados por forte fluxo comprador, renovando ou se aproximando de máximas históricas.
No mercado doméstico, o principal ponto de atenção está no esticamento prévio do Ibovespa e em possíveis sinais gráficos de correção no semanal, enquanto o câmbio opera em sobrevenda e pode ensaiar repiques técnicos. No exterior, a força compradora ainda prevalece, com índices acima das médias móveis e estrutura positiva. Já o Bitcoin tenta ampliar a recuperação iniciada após testar a região de US$ 60 mil.
Em resumo, o mercado brasileiro encontra-se em fase de ajuste após forte alta recente, enquanto ativos internacionais mantêm viés construtivo. O foco agora recai sobre suportes importantes no Ibovespa, possível reação do dólar e continuidade do movimento positivo nas bolsas americanas e no Bitcoin.
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Análise técnica do Ibovespa
Pelo gráfico diário, observo que o Ibovespa iniciou movimento corretivo após renovar máxima histórica em 199.354 pontos na última semana. O índice encerrou a última sessão com baixa de 0,55%, aos 195.733 pontos, e fechou a semana em queda de 0,81%, interrompendo uma sequência de três semanas positivas. Em 2026, ainda acumula valorização de 21,48%.
No gráfico semanal, destaco a formação de uma possível estrela cadente, padrão que pode reforçar correção caso haja perda da mínima da última semana em 195.367 pontos. O IFR semanal em 73,29 também sugere mercado ainda sobrecomprado. No diário, o IFR (14) marca 64,52, ainda em zona neutra.
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Para retomar a alta, o índice precisa superar novamente os 199.354 pontos, abrindo espaço para 200.000/203.900 pontos, com alvos mais longos em 205.430/207.000 pontos.
Já para intensificar a correção, precisará perder 194.945/192.206 pontos, mirando 189.250/185.210 pontos e, em cenário mais amplo, 180.975/175.050 pontos.
No dólar futuro, sigo vendo uma estrutura técnica de baixa bem definida. O ativo completou cinco semanas consecutivas de queda e fechou a última sessão em baixa de 0,32%, aos 4.990 pontos, mantendo negociação abaixo das médias móveis de 9 e 21 períodos.
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O IFR (14) em 27,34 indica sobrevenda, o que aumenta a chance de repiques técnicos. Além disso, observo formação de martelo no fundo, acompanhada de volume, sinal que pode favorecer recuperação pontual no curto prazo.
Para continuidade da queda, o mercado precisa romper 4.955/4.905 pontos, com alvos em 4.850/4.798,5 pontos e extensão até 4.752 pontos.
Para reação altista, será necessário superar 5.017/5.124 pontos, mirando 5.158,5/5.215,5 pontos e depois 5.286/5.383,5 pontos.
A Nasdaq segue como um dos destaques positivos. O índice avançou pela terceira semana consecutiva, renovou máxima histórica e fechou todas as sessões da última semana no positivo, sustentado por forte volume comprador.
Atualmente, negocia aos 26.672 pontos, acumulando alta de 12,35% em abril. A estrutura permanece positiva, com preços acima das médias móveis e sem sinais claros de enfraquecimento.
Para continuidade da alta, precisa romper 26.719 pontos, com projeções em 26.875/27.385 pontos e depois 27.665/28.300 pontos.
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Em eventual correção, a perda de 26.481/26.200 pontos pode abrir espaço para 25.840/25.380 pontos, com extensão até 25.069/24.755 pontos.
O S&P 500 também mantém viés construtivo, registrando a terceira semana consecutiva de ganhos e encerrando todas as sessões recentes em alta. O índice opera aos 7.126 pontos, com valorização de 9,15% em abril.
A estrutura técnica segue positiva, acima das médias móveis e próxima da máxima histórica em 7.147 pontos.
Se romper essa faixa, pode buscar 7.200/7.320 pontos, com alvos posteriores em 7.385/7.500 pontos.
Já uma correção exigiria perda de 7.074/7.022 pontos, abrindo espaço para 6.967/6.886 pontos e, depois, 6.806/6.740 pontos.
O Bitcoin segue em movimento de recuperação no curto prazo, após testar recentemente a região de US$ 60.000. O ativo permanece abaixo de US$ 80.000, mas mostra melhora técnica ao negociar acima das médias móveis.
Em abril, a criptomoeda acumula alta superior a 10%, reforçando a retomada compradora. O ponto-chave agora está no rompimento da lateralização recente.
Para ganhar força, precisa superar US$ 77.075/US$ 79.360, o que pode levar aos alvos de US$ 84.650/US$ 91.224, com extensões em US$ 97.624 e US$ 100.000.
Na ponta negativa, a perda de US$ 74.800/US$ 70.466 e depois US$ 65.821/US$ 62.510 recoloca pressão vendedora, com suportes em US$ 58.946/US$ 52.550.
O IFR (Índice de Força Relativa), é um dos indicadores mais populares da análise técnica. Medido de 0 a 100, costuma-se usar o período de 14. Leitura abaixo ou próxima de 30 indica sobrevenda e possíveis oportunidades de compra, enquanto acima ou próxima de 70 sugere sobrecompra e chance de correção.
Além disso, o IFR permite a aplicação de técnicas como suportes, resistências, divergências e figuras gráficas. A partir disso, segue as cinco ações mais sobrecomprados e sobrevendidos do Ibovespa:
Fonte: Nelogica. Elaboração: Rodrigo Paz
(Rodrigo Paz é analista técnico)
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Dois em cada três brasileiros (67%) têm algum tipo de dívida financeira, como empréstimos, segundo pesquisa Datafolha. O levantamento divulgado neste sábado revela ainda que 21% da população está com pagamentos em atraso, evidenciando o avanço da inadimplência no país.
Entre os que recorreram a empréstimos com amigos e familiares, a situação é ainda mais crítica: 41% afirmam estar devendo. Já entre os principais tipos de dívida em atraso, o cartão de crédito parcelado lidera, citado por 29% dos entrevistados, seguido por empréstimos bancários (26%) e carnês de lojas (25%).
O uso do crédito rotativo — modalidade acionada quando se paga apenas o valor mínimo da fatura do cartão — também chama atenção. Segundo a pesquisa, 27% dos brasileiros utilizam essa linha de crédito com alguma frequência, sendo 5% de forma recorrente. Considerado o crédito mais caro do mercado, o rotativo tem juros médios de 14,9% ao mês, de acordo com o Banco Central, com limite anual de 100% desde 2024.
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O estudo também aponta que 28% dos brasileiros estão com contas de consumo e serviços em atraso. Entre os principais débitos aparecem telefone, celular e internet (12%), tributos como IPTU, IPVA e carnê-leão (12%), além de contas de luz (11%) e água (9%).
A pressão financeira se reflete no cotidiano das famílias. Para enfrentar as dificuldades, 64% dos entrevistados disseram ter reduzido gastos com lazer, enquanto 60% passaram a comer menos fora de casa ou trocaram marcas por opções mais baratas. Outros 52% afirmam ter diminuído a quantidade de alimentos comprados.
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Além disso, metade dos brasileiros declarou ter reduzido o consumo de água, luz e gás, enquanto 40% deixaram de pagar alguma conta e 38% interromperam o pagamento de dívidas ou reduziram a compra de medicamentos.
O Datafolha também mediu o nível de aperto financeiro da população. O resultado mostra que 27% vivem em situação considerada “apertada” e 18% em condição “severa”, totalizando 45% dos brasileiros sob forte চাপo no orçamento. Outros 36% estão em situação moderada, e apenas 19% se classificam como em condição leve ou sem restrições.
As dificuldades financeiras aparecem como principal preocupação pessoal dos brasileiros. Segundo o levantamento, 37% citam problemas ligados a dinheiro, como falta de renda, endividamento e custo de vida. A resposta mais frequente foi “questões financeiras/falta de dinheiro/renda”, apontada por 27% dos entrevistados.
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A pesquisa também revela o peso do crédito no dia a dia: 57% dos brasileiros usam cartão de crédito, sendo que 13% parcelam compras de supermercado com frequência e 4% fazem o mesmo com contas básicas, como água e luz. Além disso, 5% afirmam pagar a fatura de um cartão com o limite de outro com frequência, enquanto 10% fazem isso ocasionalmente.
A percepção de que o crédito facilita o endividamento também é alta: 68% concordam que ofertas via celular ou internet incentivam gastos por impulso, e 51% dizem ser difícil fechar as contas do mês sem usar cartão de crédito.
O levantamento mostra ainda fragilidade na organização das finanças pessoais. Apenas 44% dos brasileiros dizem fazer um orçamento detalhado, enquanto 23% não realizam qualquer tipo de controle de gastos.
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A ausência de reserva financeira é outro ponto crítico: 66% afirmam não ter nenhuma poupança. Entre os que possuem, 12% conseguiriam manter suas despesas por menos de três meses, e 10% por um período de três a seis meses em caso de perda de renda.
Metade da população (49%) diz se sentir mal ou muito mal em relação à situação financeira do país.
A pesquisa Datafolha ouviu 2.002 pessoas com 16 anos ou mais em 117 municípios brasileiros nos dias 8 e 9 de abril. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.