A notícia de que uma semana de moda no Rio voltaria a acontecer — e em grande estilo — pegou fashionistas e aspirantes à categoria de surpresa. É que a última tentativa, feita em 2016, sem empolgar, durou apenas uma temporada.
Então, quando Eduardo Paes anunciou em dezembro, com um avatar seu desfilando no Instagram, que o Rio Fashion Week vinha aí, teve gente desacreditada na notícia (e no post kitsch do então prefeito do Rio). Outras se animaram. E teve ainda quem chiou ao pensar que a ideia de ressuscitar uma fashion week na cidade vinha do paulista Paulo Borges, sócio e criador do São Paulo Fashion Week.
Confesso que, além do post de Dudu Paes, desacreditei do cronograma de lançamento — o que foi anunciado em dezembro acontece agora, em abril, um tempo apertadíssimo para fazer algo do tamanho que a cidade e a moda merecem.
“Na verdade, a ideia já tinha sido plantada há alguns anos pela Daniela Maia, secretária municipal de turismo, que me procurou algumas vezes para fazermos algo. Nunca sentia que era hora de irmos nessa direção porque eu estava começando a fazer o Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1. Até que, em outubro passado, intuí que tinha chegado o momento. Liguei para a Dani e aqui estamos,” diz Alan Adler, CEO da IMM Esporte e Entretenimento, o carioca (e friso a palavra carioca) responsável por colocar o Rio Fashion Week de pé.

Foi só nessa entrevista que a ficha desta fashionista caiu. O Rio Fashion Week aconteceria mesmo, e com potência, graças ao Alan, um CEO nascido e criado no Rio, que curte moda, respeita a moda, mas não vive a moda.
Sentado em sua casa no Jardim Botânico, de camiseta branca e sotaque arrastado como o meu, Alan conta que sua única condição para fazer a semana de moda do Rio acontecer era que o evento fosse “pé no chão”.
Com 24 anos de experiência em eventos como o próprio SPFW, Cirque du Soleil, SP e Rio Open e Rio Sail GP, Alan sabe que seria uma “viagem”, como ele mesmo disse, trazer uma marca internacional para a passarela.
“Isso não faz sentido, é um investimento gigante. Não acho que deixe o legado que a gente imagina ter. Claro que um dia isso pode acontecer, mas tem que acontecer de forma espontânea. Precisa ter viabilidade econômica e financeira, senão não se sustenta. Legal, fica bonito para caramba no primeiro ano, aí, no segundo ano, opa!, a marca já não vem. No terceiro ano, opa!, já tem um buraco aqui para cobrir de anos. Pé no chão é levar, de fato, o Rio para o mundo, levar a moda carioca para o mundo, e não querer trazer a Dior, por exemplo. Temos marcas incríveis aqui!”, disse ele.
“Existia um vácuo enorme no Rio de Janeiro. Um absurdo o Rio não ter uma semana de moda que a gente possa se orgulhar, que possa representar o nosso estilo, nosso lado sexy. Como empresário desse setor vi ali uma oportunidade.”
Velejador olímpico de três edições dos Jogos, Alan conta que foi o esporte que o conectou com a moda.
“Quando você lança uma camisa da seleção brasileira, cara, isso é moda. O uniforme vira um tema entre os atletas porque tem que ser bonito e agradável,” disse ele, um consumidor de moda esportiva discreta, como as polos da Lacoste com o crocodilo camuflado no mesmo tom da blusa. “A moda é sobre comportamento.”
Marcado para acontecer no Porto Maravilha entre 15 e 18 de abril, o Rio Fashion Week quer também aproximar as pessoas.
“A atenção às redes é tão grande que estamos mais sozinhos, isolados. A única certeza que eu tenho é que a interação social vai ser cada vez mais valorizada. E isso mexe com o nosso setor, que já está se valorizando demais e só tende a crescer. Uma das únicas coisas que você ainda consome ao vivo é o esporte. Então o Porto Maravilha vai ser esse hub onde as pessoas vão se ver e ser felizes, onde as marcas vão se conectar com elas.”
Vinte marcas do Brasil todo vão apresentar suas coleções para convidados, compradores, imprensa nacional e internacional e entusiastas que puderam comprar convites para os desfiles — os ingressos, já esgotados, partiram de R$ 50.
Nomes consagrados da moda brasileira como Patricia Viera, Osklen, Lenny e Blueman se unem a uma turma jovem e talentosa que já brilha aqui e lá fora, como Airon Martin, da Misci, e Karoline Vitto, catarinense radicada em Londres e conhecida por seus vestidos colantes que desenham corpos para além do tamanho G.
Mais que desfiles, Alan lembra que Rio Fashion Week tem uma programação extensa, com festas, ativações pela cidade, business sessions com palestrantes que vieram de fora.
A expectativa da Prefeitura é que o evento movimente mais de R$ 200 milhões, com geração de 8 mil empregos, além de ter potencial para gerar até R$ 1 bilhão em mídia espontânea para o Rio.
No comando de 92 pessoas que trabalham na IMM, Alan gosta de gente, de olho no olho, mas se diz um homem de backstage. Vai ver tudo, todos os desfiles, para sentir o público – e por isso estará, segundo ele, à paisana.
“Fico assim em todos os meus eventos, conversando com as pessoas, entendendo quem quer voltar no ano que vem. Menos na Fórmula 1. Nesse caso eu apareço mais.”
O que o Rio Fashion Week deixa para a cidade?, pergunto.
“É algo intangível, mas essencial. É a reputação da cidade, da imagem do Rio para o mundo. E que a gente deixe autoestima e prosperidade pras marcas e obviamente autoestima para todo mundo que participa, para o carioca, para as marcas. É um evento para se orgulhar. E que seja o primeiro de muitos e muitos.”
Paula Merlo