Ser dono ou executivo de varejo no Brasil é um MBA diário. Vivemos hiperinflação, inflação, juros altos, juros baixos, IPCA, IGP-M, contratos indexados com shoppings, garantia na PF, LTDA que não é LTDA, negociação com a indústria, boom e indisponibilidade de crédito… É um verdadeiro teste de sobrevivência. Mas, apesar da bagunça, estamos aqui, em 2026, firmes e fortes. Já um varejista americano não aguentaria 10 anos de Brasil. Uso de exemplo um americano pois esse é o país-sede da NRF, o maior evento do varejo mundial.
Neste ano, tive a oportunidade de participar pela segunda vez, como parte de uma comitiva de mais de 2500 brasileiros. Muitos deles com até 20 anos de vivência no evento. E o que aprendi com eles foi: cuidado com mensagens proféticas vindas de fora. A feira é sensacional e os debates, incríveis. Às vezes tão inspiradores, que levam ao hype. Mas justamente por isso, é preciso tomar cuidado para não sair de lá querendo jogar tudo para o alto e revolucionar o seu negócio por completo.
Em uma palestra do circuito pós-NRF para brasileiros, uma grande personalidade do varejo brasileiro contou que já viu de tudo nessas duas décadas de evento. Na edição de 2019, por exemplo, decretaram o fim do varejo físico, garantindo que vender em loja era coisa do passado e que o futuro seria todo online. O que se seguiu foi uma série de varejistas especialistas em lojas físicas brigando para entrar no universo online, comprando sites de e-commerces nichados e tentando desenvolver uma expertise desconhecida – e, assim, incentivando uma enxurrada de outros players a fazerem o mesmo. Como consequência, deixaram de lado aquilo em que eram realmente bons.
O que é discutido na feira e no pós-feira gera muita inquietação. É uma ansiedade que pode nos levar a tomar decisões questionáveis que desviam nossos negócios do que realmente são bons e/ou do que é necessário melhorar. Portanto, faço um convite para voltarmos aos fundamentos dos nossos negócios e entendermos como as “mensagens proféticas” da NRF 2026 podem realmente nos ajudar a fortalecer os nossos negócios.
Entre os anúncios que mais chamaram atenção tivemos o UCP da Google e a evolução do checkout online integrado ao Gemini. Usuários que hoje pesquisam sobre produtos usando o Gemini poderão concluir suas compras diretamente por lá. Em 2019, o Instagram tentou lançar o Instagram Check Out, mas talvez estivesse à frente do seu tempo. Em 2021, o Tiktok lançou o Tiktok Shop, que em 2025 chegou ao Brasil fazendo barulho. O UCP, muito provavelmente, chegará às demais ferramentas de Inteligência Artificial em breve. Este é o resultado de anos de testes e evoluções no processo de compra online, que cada vez mais mira em criar experiências mais fluidas e reduzir a fricção entre descoberta, decisão e pagamento.
Junto deste anúncio, novos temas e termos surgiram, como foi o caso do “GEO” – o SEO das inteligências artificiais. Nossos times de marketing, que aprenderam a hackear e vencer a guerra do SEO no Google, agora entrarão em uma nova batalha. O lançamento do
Google e suas ramificações foi um tema tão relevante que ocupou uma tarde inteira de discussão da nossa delegação. Foi profético? Talvez. Vai mudar a forma de comprar de parte da sociedade? Provavelmente. Amanhã? Não! Precisamos parar tudo para entender isso? Ainda não.
Ao mesmo tempo, tivemos também muitos outros exemplos tangíveis de como a AI pode nos ajudar como varejistas. Gestão de estoque mais precisa, redução de rupturas, apoio à logística, treinamento de vendedores por meio de simulações, melhor disposição de produtos no ponto de venda, promoções mais bem direcionadas e um relacionamento mais inteligente com o cliente.
Vários desses recursos não exigem grandes times de tecnologia nem investimentos milionários. Existem uma série de fornecedores especialistas e, principalmente, startups, que têm excelentes soluções para estas questões.
Usos como esses, associados aos fundamentos que mencionei e à manutenção da proposta de valor, podem realmente nos ajudar a trazer alguns (ou muitos) milhões a mais de receita, caixa, empregos e impacto. Esse ponto, aliás, me faz lembrar de outra provocação das últimas NRFs: como o varejo consegue aumentar sua receita pensando fora da caixa. Se o varejista faz todo o investimento para trazer o cliente para sua loja, para seu site e sua rede social, então por que não monetizar mais em cima disso? Existem vários ângulos para isso.
Aplicações mais profundas de AI — como monetização de dados, retail media avançado e publicidade programática dentro da loja física — parecem muito legais e boas fontes incrementais de receita, mas são estratégias, ao menos por ora, restritas ao grande varejo, que conta com verba dedicada, profissionais especializados e estruturas robustas.
Em contrapartida, se não estamos mais avançados que o “primeiro mundo” em termos de soluções tecnológicas para o varejo — no universo de meios de pagamento estamos pelo menos 10 anos na frente deles. O exemplo mais fácil e atual é o PIX, mas um melhor (e mais chocante para o varejista brasileiro), é o nosso famoso crediário. Enquanto as Casas Bahia lançaram esse conceito na década de 1950, o “BNPL” (Buy Now Pay Later) só chegou aos principais temas da NRF em 2023.
Para eles, novidade, para nós a maior e melhor ferramenta comprovada de aumento de vendas e capacidade de monetização de base de clientes — batendo, em alguns casos, aumentos de receita na ordem de 50% em 18 meses. Enquanto eles discutem monetização extra de clientes por meio de retail media nós focamos em mexer o ponteiro de verdade. Monetizar a base de clientes por meio do crédito é uma das poucas alavancas que podem dobrar a receita do varejo em 2 anos. E faz isso com muito melhor ROI do que outras iniciativas.
Na fronteira do conhecimento em termos de tecnologia e produto, com AI e AGI embarcadas, hoje os varejistas conseguem ter sua própria operação de crédito sem precisar criar uma verdadeira instituição financeira interna ou ficar na mão da aprovação das financeiras. E, ainda, faz isso com a possibilidade de escolher entre investir na operação ou não, com tudo que os principais bancos do país têm de tecnologia à disposição.
Mais uma vez, voltamos aos fundamentos deste segmento: é preciso ter margem na venda do produto, clientes fiéis e gestão de estoque. Para desdobrar isso é importante que o varejista entenda o que trouxe ele até aqui. Sua proposta de valor é ter a melhor experiência ao cliente? É ter o melhor preço? É a conveniência? Ter clareza disso e comunicar com intencionalidade é o primeiro passo de tudo. Mas chega de ensinar o padre a rezar a missa. O recado deste texto é que o varejista reflita e pense em como a AI e as novas tendências do mercado podem ajudá-lo a fazer melhor o que ela já faz bem e a executar melhor aquilo que é simples.
A verdadeira mensagem na NRF foi sutil, porém poderosa: o futuro da compra passa por experiências cada vez mais fluidas, com menos fricção entre descoberta, decisão e pagamento. O consumidor está em busca de experiências aliadas à sua proposta de valor. A tecnologia de AIs e AGIs não são o sujeito dessa jornada, são ferramentas para ajudar nisso.
Quando varejistas me questionam sobre tecnologia e seus desdobramentos, percebo que a IA ganhou um peso desproporcional no debate — como se ela, sozinha, fosse capaz de definir o sucesso ou o fracasso de um negócio de varejo.
Isso quer dizer que devemos negar a IA? Ou condenar uma rede varejista a jamais se aventurar no futuro? De jeito nenhum. Mas também não significa sair correndo atrás de toda novidade ou tratar a tecnologia como um fim em si mesmo.
Na minha visão, hoje é praticamente inaceitável que um executivo ou dono de varejo não use diariamente ferramentas como o ChatGPT ou outros assistentes. A tecnologia já está disponível, é acessível e deve fazer parte do processo cotidiano de tomada de decisão dos líderes.
Da mesma forma, todo varejista deveria ter ao menos uma startup como parceira — não para “revolucionar tudo”, mas para se manter próximo da tecnologia, aprender com ela e evoluir de forma incremental e sustentável. Adotar AI nunca será um erro; o erro mora em se afobar, perder o foco e esquecer a proposta de valor que trouxe o negócio até aqui. A tecnologia nunca substituirá os fundamentos do varejo, ela irá fortalecê-los. Basta usá-la com clareza e intenção.
Imagem: Freepik
Por Theo Ramalho, Co-fundador da fintech Ume *Publieditorial
A Frooty anunciou a abertura de suas duas primeiras lojas físicas em São Paulo. Os quiosques estão localizados nos shoppings Shopping Campo Limpo e SP Market.
A empresa, conhecida pela comercialização de açaí em supermercados e marketplaces, passa a oferecer seus produtos em formato de quiosque, com cardápio voltado ao consumo imediato. As lojas apresentam opções de açaí em cones, bowls e smoothies, além de combinações com diferentes toppings e receitas inspiradas em sobremesas.
Entre as opções disponíveis estão versões com sabores como Banoffee, bolo Floresta Negra, beijinho de morango e Biscoff. Os cones podem receber acompanhamentos como calda de caramelo com pipoca crocante, beijinho, pistache, raspas de chocolate branco e pedaços de avelã.
Os bowls incluem combinações com frutas, leite condensado, leite em pó e chantilly. Já os smoothies podem ser preparados com banana, morango, leite em pó e paçoca, com possibilidade de acréscimo de chantilly e whey protein, que adiciona 21 gramas de proteína por porção.
Segundo a empresa, o cardápio foi desenvolvido para diferentes momentos de consumo, incluindo opções voltadas ao pré-treino e sobremesas.
Além da abertura dos quiosques, a Frooty lançou um aplicativo próprio, disponível para sistemas iOS e Android. A plataforma permite a realização de pedidos para consumo em casa ou retirada na loja. O aplicativo também oferece cupons de desconto e programa de pontos para troca por benefícios.
“O açaí já faz parte do dia a dia dos brasileiros. Agora, a Frooty traz dois novos quiosques para fazer parte dessa rotina de uma maneira diferente, com receitas inéditas e prontas para o consumo em qualquer momento do dia. Com mais essa opção, queremos estar cada vez mais perto dos nossos clientes”, afirma Fabio Carvalho, CEO da Frooty.
O nível de endividamento das famílias em Belo Horizonte cresceu 1,4 ponto percentual em janeiro, ficando em 89,0%. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), analisada pela Fecomércio MG e aplicada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), as famílias com contas em atraso somaram 64,7% em janeiro, o que representa queda de 0,1% na comparação mensal, seguindo um ritmo nacional de endividamento.
O número de consumidores que não terão condições de quitar suas dívidas somou 28,6%, apresentando um crescimento de 1,4 p.p. em relação ao mês de dezembro. Conforme 39,0% dos consumidores, eles se consideram pouco endividados.
Segundo a PEIC, o principal compromisso financeiro dos consumidores da capital é o cartão de crédito. Em janeiro, 96,3% se comprometeram com esse tipo de dívida, sendo que as famílias que ganham 10 ou mais salários-mínimos as que mais se endividaram no cartão: 99,2%.
A parcela de famílias com algum compromisso financeiro em atraso chega a 64,7% em janeiro, o que representa uma queda de 0,1 p.p abaixo de dezembro. A inadimplência é 18,0% maior em famílias com renda igual ou inferior a dez salários-mínimos, atingindo 67,3% delas; entre as de maior renda, o atraso no pagamento das dívidas atinge 49,3%. Entre os endividados, 72,7% ainda não conseguiram honrar seus compromissos e estão com dívidas em atraso.
Entre as famílias que não terão condições de quitar as dívidas, destacam-se aquelas com renda igual ou inferior a dez salários-mínimos: 31,0%. Entre as de maior renda, o percentual é de 15,9%. Entre os consumidores com dívidas atrasadas, 44,2% avaliaram que não teriam condições de honrar com os compromissos financeiros no mês seguinte.
Entre as famílias com contas pendentes, 48,0% afirmam que essas contas ultrapassam 90 dias, aumento de 1,7 p.p. em relação a dezembro. As dívidas estão atrasadas, em média, há 63,2 dias, mostra a pesquisa. Para 79,8% das famílias os compromissos são por período igual ou superior a 90 dias. O tempo médio de comprometimento da renda é de 8,1 meses.
Para 26,9% das famílias, as dívidas comprometem mais de 50% do orçamento mensal, esse percentual era de 25,3% em dezembro; em média, as dívidas comprometem 33,0% do orçamento familiar.Gabriela Martins, economista da Fecomércio MG, ressalta que, apesar do leve recuo no nível de famílias com contas em atraso no mês de janeiro (inadimplentes), o cenário continua sendo muito desafiador para a capital mineira. “Atualmente o que realmente tem nos preocupado é o nível alto de contas em atraso e o aumento, mês após mês, das famílias que não terão condições de pagar suas contas em atraso. Quando observamos que quase metade dessas dívidas já ultrapassa 90 dias e que mais de um quarto das famílias compromete acima de 50% da renda mensal com obrigações financeiras, percebemos um quadro de forte restrição orçamentária, especialmente entre as famílias de menor renda. Esse contexto tende a limitar o consumo nos próximos meses, pressionar o comércio e exigir maior planejamento financeiro por parte dos consumidores, principalmente em um cenário de encarecimento do custo do crédito”, explica Martins.
O Auditório TOTVS, em São Paulo, recebeu nesta quinta-feira (12) o Pós-NRF da TOTVS, evento que apresentou os principais insights da NRF 2026, realizada em Nova York. A curadoria de conteúdo foi assinada pela Central do Varejo e reuniu executivos, líderes e profissionais do setor para discutir os impactos das transformações globais no varejo brasileiro.
A abertura foi conduzida por Elói Assis, diretor executivo de varejo e distribuição da TOTVS, que destacou a parceria com a Central do Varejo e a importância de traduzir os aprendizados da NRF para a realidade do mercado nacional.
Na sequência, Daniel Zanco, sócio-fundador da Central do Varejo, apresentou um panorama do congresso, que classificou como “o grande ponto de encontro do varejo mundial”. Em sua 18ª participação na NRF, Zanco afirmou que a edição de 2026 marcou um novo estágio na discussão sobre tecnologia.
“Eu nunca vi tanta força para um tema quanto inteligência artificial ganhou. Nunca aconteceu um palco monotemático. Nesta edição tinha um AI Stage e, nas 170 palestras, quase 85% falavam de inteligência artificial de alguma forma”, afirmou.
Segundo ele, a IA deixou de ser piloto ou promessa para se consolidar como aplicação concreta no dia a dia das operações. “Isso deixou de ser piloto, deixou de ser promessa e de fato é algo presente no dia a dia de muitos varejistas”, disse.
“The Next Now”: o futuro como presente
A NRF 2026 teve como tema central “The Next Now”. Para Zanco, o conceito sinaliza que as transformações já estão em curso. “O futuro é agora, gente, não é mais quando for acontecer. Já virou a chave”, afirmou.
Ele ressaltou que as respostas do passado já não são suficientes para os desafios atuais. “As respostas do passado não vão mais responder as perguntas de hoje, nem as de amanhã”, declarou.
Ao contextualizar o cenário brasileiro, o executivo destacou que o varejo nacional enfrenta pressões adicionais, como reforma tributária e ambiente econômico desafiador, o que exige maior eficiência e capacidade de adaptação.
Três pilares estratégicos
Para organizar os principais aprendizados do congresso, Zanco estruturou os insights em três “alinhadores estratégicos”: acesso e conveniência; diferenciação; e eficiência operacional.
No primeiro eixo, destacou o avanço do chamado discovery commerce, impulsionado por plataformas como TikTok, e a evolução do agentic commerce. Segundo ele, a busca por produtos está migrando para ambientes mediados por agentes de inteligência artificial.
“O Google falou de 50 bilhões de buscas direcionadas a descobrir produto. […] Eu posso não só mostrar o produto, mas fechar a venda toda”, relatou.
Ele mencionou o anúncio do Universal Commerce Protocol (UCP), apresentado durante a NRF, como tentativa de padronizar informações para transações realizadas por agentes digitais. “Eu vou pedir para o meu Gemini comprar camiseta branca tamanho M abaixo de R$ 120 e me entregar em até três dias. Ele já tem minha informação de pagamento, já sabe meu endereço e vai lá fazer a seleção”, exemplificou.
Marca, comunidade e loja física
No eixo da diferenciação, Zanco destacou a importância da construção de marca por meio de comunidade, autenticidade e excelência de produto. Citou a necessidade de posicionamento claro e coerente, além de comunicação consistente.
“O consumidor sabe quando a comunicação é fake. Ele sabe quando eu estou só falando o que ele quer ouvir”, afirmou, ao mencionar reflexões apresentadas durante o evento.
A loja física também foi apontada como elemento relevante na estratégia de marca. Segundo ele, em um contexto de hiperconectividade, o espaço físico assume papel de conexão social e experiência.
“Não há nenhuma variável no mix de varejo que cause tanto impacto no consumidor quanto a loja”, afirmou.
IA como plataforma, não vantagem exclusiva
No campo da eficiência, Zanco apresentou casos de uso de inteligência artificial em atendimento, logística, marketing, planejamento de demanda e automação de processos. Citou exemplos de assistentes virtuais como Rufus, da Amazon, e aplicações no Walmart.
Apesar da abrangência das aplicações, o executivo fez uma ressalva sobre o caráter estratégico da tecnologia. “Se eu de fato quiser criar uma vantagem competitiva para o meu negócio, eu vou ter que ir além da inteligência artificial”, declarou.
Segundo ele, a IA tende a se tornar um requisito básico. “A inteligência artificial vira plataforma, vira pré-requisito. Não é por conta da IA que eu vou ter um negócio único”, concluiu.
Human Premium, curadoria e loja como laboratório: o varejo físico em nova camada estratégica
Após a palestra de Daniel Zanco, o palco foi ocupado por Bianca Murotani, sócia-diretora da GDesign, e Julia Menin, coordenadora de projetos do escritório de arquitetura do Ecossistema Goakira. A dupla apresentou um panorama das principais lojas visitadas pela delegação da Central do Varejo em Nova York, conectando os conceitos discutidos na NRF à aplicação prática no ponto de venda.
Logo na abertura, Bianca reforçou que, apesar do avanço da inteligência artificial, o espaço físico mantém papel central na estratégia das marcas.
“A IA pode ser tudo, mas ela não vai substituir a experiência real. E a loja é o nosso principal core dentro de um negócio para trazer essa experiência e esse contato com o meu cliente”, afirmou.
Human Premium: o humano como diferencial
O primeiro conceito apresentado foi o de “Human Premium”. Segundo as arquitetas, em um cenário de economia da atenção, o tempo passa a ser o ativo mais disputado.
“Quando a gente fala aqui do humano como luxo, não é um luxo ostentação, é um luxo sensorial, é um luxo de tempo. O meu tempo hoje é o bem mais precioso que eu tenho”, explicou Bianca.
Como exemplo, a dupla destacou a loja da Printemps em Nova York, instalada no distrito financeiro de Wall Street. A estratégia da marca foi inverter a lógica tradicional de localização.
“Todo mundo esperava a Printemps na Quinta Avenida. Eles mudaram a lógica”, relatou.
Com 5 mil metros quadrados, sendo 35% dedicados à gastronomia, a loja trabalha a exposição por contexto, não por departamento, e conduz o cliente por meio de narrativa arquitetônica. “Eu não vou na Printemps para comprar na ala masculina. Eu vou comprar num salão e toda a narrativa da loja vai contando sobre cenas sociais parisienses”, explicou Julia.
A permanência no espaço é tratada como parte da estratégia comercial. “A gente tem dados aqui que quanto mais tempo passa dentro de uma loja, mais eu vou consumir”, afirmou.
Arquitetura que educa e ativa o sensorial
A boutique da Nespresso em Nova York foi apresentada como exemplo de “arquitetura que educa”. Mais do que vender cápsulas, a proposta é proporcionar brand experience.
“A Ana Espresso entende que mais do que vender cápsulas, o objetivo dessa loja é proporcionar uma experiência de marca”, destacou Bianca.
Entre os destaques está a mesa de aromas, que associa fragrâncias aos blends de café. “Você se aproxima, borrifa como se fosse um perfume e sente aromas diferentes”, relatou. A experiência, segundo ela, ativa memórias afetivas e estimula a compra.
Outro elemento é o bar secreto, aberto das 17h às 19h, instalado atrás de um quadro no interior da loja. “Gera um burburinho muito grande”, afirmou.
Além da experiência sensorial, a loja coleta dados e constrói relacionamento contínuo com o consumidor, reforçando a integração entre físico e digital.
Curadoria como estratégia de relevância
A curadoria apareceu como resposta à sobrecarga de opções. “O consumidor não busca somente quantidade ou variedade de produto. Ele busca hoje fazer boas escolhas”, afirmou Bianca.
A loja da Target no SoHo foi citada como exemplo de curadoria fora do universo de luxo. A área chamada “The Drop”, posicionada logo na entrada, trabalha exposições rotativas de moda, home e presentes.
“É para ser uma área realmente de inspiração”, explicou.
Comunidade como ativo de marca
A apresentação também destacou o papel da loja na construção de comunidades. A Lululemon foi mencionada como exemplo de marca que estrutura seu varejo em torno de lifestyle e wellness, com instrutores e embaixadores integrados à operação.
Já a The North Face utiliza a arquitetura para contar a jornada de uma escalada, no conceito “below and above the tree line”. “Eles expõem equipamentos. Não roupa”, explicou.
A marca também integra programa de fidelidade à prática esportiva, não apenas à compra.
Na mesma linha, a Tecovas foi apresentada como exemplo de hospitalidade como diferencial competitivo. “Se eu não conto toda a história, toda narrativa do que tem por trás, eu não ia conseguir vender o meu produto pelo valor que eu tenho”, afirmou.
Personalização e co-criação
A personalização foi tratada como requisito básico, mas com avanço para co-criação. A loja da LEGO em Nova York foi citada como exemplo de espaço que funciona como topo de funil físico.
“A loja funciona como topo do funil físico. Mesmo quando eu não efetuo a compra aqui, eu pesquiso mais sobre LEGO e acabo convertendo”, explicou.
Marcas como Crocs e Rimowa também foram mencionadas por integrarem personalização e iniciativas de remanufatura, conectando experiência à economia circular.
Retail as a Lab
O último eixo foi o conceito de “Retail as a Lab”, no qual a loja funciona como laboratório vivo. A Meta foi apresentada como exemplo por meio da MetaLab, espaço dedicado à experimentação de produtos como o Meta Quest e óculos inteligentes.
“O objetivo não é necessariamente somente vender, e sim proporcionar uma experiência e ter o feedback”, destacou.
Para as arquitetas, o varejo físico não vive um cenário de substituição, mas de evolução em camadas.
“A gente está falando de um processo evolutivo. Eu adiciono uma camada de informação e entendo que a experiência também passa a fazer parte da jornada”, afirmou Bianca.
Ao encerrar, a dupla reforçou que a loja precisa ser flexível, eficiente e conectada à comunidade.
Confira a cobertura completa da NRF 2026 no portal Central do Varejo
Elói Assis apresenta o “paradoxo do varejo 2026” e media painel com executivos
Após as apresentações sobre tendências e lojas internacionais, Elói Assis, diretor executivo de varejo e distribuição da TOTVS, subiu ao palco para compartilhar sua leitura estratégica da NRF 2026 e conduzir um painel com executivos convidados.
Em sua palestra, Elói sintetizou os aprendizados do evento no que chamou de “paradoxo do varejo de 2026”. Segundo ele, o setor vive um novo campo de batalha.
“De um lado, a gente vai ser forçado a confrontar a necessidade de entregar uma eficiência brutal na nossa operação. […] E esse ano a gente viu muitos cases. […] Ela já está mudando”, afirmou.
Para o executivo, a inteligência artificial deixou de ser tendência para se tornar infraestrutura estratégica. “A gente já não faz mais essa pergunta. […] Como é que eu vivia antes? Como é que era sem IA?”, provocou.
No entanto, ele alertou que a eficiência tende a virar commodity. “Vai chegar uma hora que todo mundo vai usar IA. […] Como é que vocês vão se diferenciar se todo mundo tiver IA?”, questionou.
Eficiência e humanidade: dois lados inseparáveis
Elói destacou que, paralelamente ao avanço tecnológico, a NRF evidenciou um movimento de valorização da conexão humana.
“A gente tem a chance de, usando IA, liberar o ser humano para ser humano, finalmente”, afirmou.
Segundo ele, o desafio será abandonar a lógica exclusivamente operacional que transformou equipes em executores de processos.
“Quando a gente consegue fazer com que a máquina seja altamente eficiente, a gente agora vai ter que enfrentar esse paradoxo de transformar os seres humanos que estão na loja em humanos de novo”, disse.
Ele estruturou sua visão em três forças: o motor da autonomia (IA e agentes), a bússola do propósito e o terreno da realidade, marcado por incertezas geopolíticas, disciplina de capital e bifurcação geracional.
“Se amanhã tiver tudo automatizado, por que o seu cliente vai continuar escolhendo a sua marca?”, provocou.
Painel: propósito, experiência e infraestrutura
Na sequência, Elói mediou um painel com Priscila Viana, head de marketing da Botoclinic; Alessandra Restaino, CEO da Le Postiche; e Fabiano Sabatini, diretor de parcerias da Intel para a América Latina.
IA com propósito e KPI claro
Fabiano iniciou a discussão sob a ótica tecnológica. Ele destacou que muitas iniciativas de IA fracassam por falta de propósito definido.
“Primeiro faltava propósito. As empresas queriam entrar na moda. […] Segundo, não tinha um KPI claro. […] E o terceiro é infraestrutura”, afirmou.
Segundo ele, a adoção de IA exige arquitetura adequada e alinhamento com estratégia de negócio. “Conectar as inovações com as áreas de negócio, operação e vendas”, defendeu
Conexão humana e cultura organizacional
Alessandra Restaino trouxe a perspectiva do varejo físico com mais de quatro décadas de história. Para ela, o desafio é incorporar eficiência sem perder identidade.
“Como a gente mantém isso, mas ao mesmo tempo traz a eficiência que a tecnologia pode proporcionar?”, questionou.
Ela relatou situações práticas que evidenciam o impacto da omnicanalidade na operação das lojas e destacou a necessidade de alinhar incentivos e cultura interna à nova lógica de varejo.
“Alinhar cabeça, coração e bolso nesse processo para você continuar tendo engajamento”, afirmou.
Tempo como ativo e experiência relevante
Priscila Viana abordou o uso da tecnologia em um modelo de negócios baseado em serviços. Para ela, a IA deve gerar valor concreto ao consumidor.
“Tudo o que a gente usa, essa automação e essa tecnologia, tem que gerar valor para o cliente”, disse.
Ela destacou que, no contexto atual, tempo é um ativo central. “Hoje eu acho que tempo é vida”, afirmou, ao defender experiências omnichannel intuitivas e personalizadas.
Marca com propósito e permanência
O painel também discutiu propósito e diferenciação. Alessandra ressaltou a importância de construir relevância de longo prazo.
“Qual é o teu legado? O que você deixa de mensagem para o consumidor que faz ele querer te escolher?”, questionou.
Fabiano reforçou a necessidade de infraestrutura preparada para sustentar a transformação digital. “A sua infraestrutura está preparada para os novos desafios?”, provocou.
“Roboticamente preciso e profundamente humano”
Ao encerrar, Elói sintetizou a discussão em uma frase que resumiu o espírito do evento.
“O varejo de 2026 não é só sobre o que você vende. Ele é sobre como roboticamente preciso você é na operação e ao mesmo tempo como profundamente humano você vai ser na conexão”, concluiu.
Além dos encontros no Brasil, a Central do Varejo já prepara sua próxima missão internacional: a NRF Paris, em setembro.
Se em Nova York o foco esteve em inteligência artificial, comércio agêntico e eficiência operacional, a edição europeia tradicionalmente amplia a discussão para luxo, experiência, branding, comportamento e o papel cultural das marcas, temas que dialogam diretamente com os insights apresentados no Pós-NRF, como capital cultural, microcomunidades, curadoria e loja como mídia.
A missão para a NRF Paris propõe uma imersão que conecta conteúdo da conferência, visitas técnicas a lojas icônicas e encontros estratégicos com executivos do setor, ampliando a visão sobre o varejo global sob a perspectiva europeia.
Em um cenário no qual tecnologia e humanidade avançam em paralelo, compreender diferentes mercados torna-se parte da estratégia competitiva. Clique abaixo e saiba mais:
Confira como foi a NRF 2026 com a Central do Varejo: