Após diversos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial de comercializadoras de energia nos últimos tempos, o mais recente caso no setor está gerando uma preocupação ainda maior – com temores de um potencial impacto estrutural no mercado.
A Tradener, uma das pioneiras do segmento, conseguiu na Justiça não só proteção contra seus credores, como é tradicional nessas ações, como também autorização para mudar o horário de entrega da energia em seus contratos com clientes.
O ajuste na hora pode parecer um detalhe, mas torna-se chave num momento em que os preços no mercado de energia de curto prazo têm variado até 2.700% dentro de um mesmo dia.
Os valores do megawatt-hora podem ir desde um piso de R$ 57, principalmente durante o dia (com excesso de geração solar), até picos de R$ 1,6 mil por MWh no começo da noite (com demanda em alta e sem a ajuda do Sol).
A Tradener disse no processo que enfrenta uma crise financeira decorrente principalmente dessa “volatilidade acentuada” dos valores da eletricidade.
O problema maior, fontes do mercado disseram ao Brazil Journal,é que a juíza autorizou a Tradener a entregar energia de acordo com a modulação da geração solar – em outras palavras, só quando a luz do sol estiver brilhando.
Na prática, isso significa que a trading atenderá seus clientes nas horas do dia em que o MWh está barato, deixando-os sem suprimento no pico de demanda (e preços) da noite.
“É um haircut energético com aval do Judiciário,” resumiu o executivo de outra trading.
“Eles venderam uma Ferrari, que é ter energia às 19h, às 20h. E estão entregando um Fusca, que é a energia ao meio-dia,” disse uma outra fonte.
“É surreal se essa decisão se mantiver. Vai gerar precedente para todo mundo.”
A decisão judicial deve impactar ainda mais a liquidez no mercado de comercialização de energia, que já está menor após os problemas recentes de algumas tradings.
Os polêmicos preços do mercado spot de energia são definidos por modelos matemáticos que levam em conta questões como a oferta de geração, a demanda e o nível dos reservatórios nas hidrelétricas.
A volatilidade aumentou com a entrada de fontes renováveis, como eólicas e solares, cuja produção é intermitente, variando com o vento e o sol.
Mas uma mudança nos parâmetros de risco utilizados no cálculo dos preços, no ano passado, fez com que diversos participantes do mercado começassem a questionar o modelo, que consideram “descalibrado.”
O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), presidido pelo Ministério de Minas e Energia, precisa decidir até junho se o atual modelo para os preços será mantido em 2027, ou se haverá ajustes.
A cautelar obtida pela Tradener, que garante proteção judicial por 60 dias, deve esquentar ainda mais essa discussão no setor.
No trading, a técnica costuma ocupar o centro da conversa. Mas, na prática, nem sempre é ela que define o resultado. Em um ambiente em que segundos podem separar o ganho da perda, conhecer os próprios limites pode ser tão decisivo quanto dominar uma estratégia. Para Rafael Covas, empreendedor do setor farmacêutico e trader, essa descoberta veio da forma mais dura: depois de uma perda de quase R$ 1 milhão, ele entendeu que, no seu caso, operar bem significava parar de insistir no controle manual e aceitar a automação como parte da sobrevivência no mercado.
Durante a Expert Trader XP, Covas concedeu entrevista ao InfoMoney e detalhou como esse episódio redefiniu sua forma de operar.
Sua trajetória no mercado começou de modo conservador, com foco em renda fixa, e depois avançou para operações mais dinâmicas, especialmente no mercado de opções. A migração para o day trade trouxe ganhos, mas também expôs fragilidades importantes no campo emocional.
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TDAH e decisão crítica
Com o tempo, os fatores comportamentais passaram a pesar cada vez mais em sua performance. Nesse processo, o diagnóstico de TDAH, somado ao hiperfoco e à ansiedade, interferia diretamente nas decisões operacionais. “Com TDAH e ansiedade, eu não consigo fazer trade manual”, autoavaliou-se.
Esse padrão se materializou em um episódio que mudou sua trajetória. O evento ocorreu em um momento de alta volatilidade e terminou em uma perda expressiva.
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“Eu tomei um stop [loss] de quase um milhão de reais.”
Segundo ele, o episódio aconteceu em uma data simbólica, o que tornou a lembrança ainda mais marcante. A memória daquele momento reforça a intensidade vivida, embora parte dos detalhes tenha se perdido. “Eu me lembro que o operador me ligou, era mais ou menos umas quatro horas da tarde”, explica.
A dinâmica do mercado naquele dia ampliou ainda mais o prejuízo, com movimentos abruptos em um intervalo muito curto. A velocidade da oscilação praticamente impediu qualquer reação. “Foi um candle de 80 pontos em um minuto”, conclui.
O impacto emocional da perda provocou uma reflexão imediata sobre sua forma de operar. O episódio marcou uma ruptura definitiva com o operacional manual. “Mas assim, isso é um sentimento ruim, né? Você sai meio angustiado, fica meio triste”, relata.
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A partir dali, mudar de abordagem deixou de ser escolha e virou necessidade. A automação apareceu como consequência direta desse aprendizado. “Dinheiro não aceita desaforo, né?”, conclui.
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Leitura e consistência
Mesmo com o uso de robôs, a leitura de mercado continua no centro da estratégia. A automação, na prática, não elimina a necessidade de interpretação; ela exige ainda mais entendimento de cenário. A escolha do ativo e do momento operacional segue influenciando diretamente o resultado. “Eu conheço toda a estrutura do robô”, afirma.
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O cenário atual, inclusive, tem orientado suas preferências operacionais, especialmente em ambientes de maior instabilidade. A seletividade passou a ser parte essencial da busca por consistência. “Eu gosto muito de operar o dólar, porque o índice está um pouco impossível de operar”, observa.
Essa busca por previsibilidade o levou a priorizar ativos com comportamento mais técnico. Já o índice, na sua leitura, tem ficado mais sujeito a ruídos externos e políticos. “O dólar se torna mais consistente”, explica.
No fim, a adaptação constante ao mercado se consolidou como um dos principais diferenciais da estratégia com automação. Mais do que usar robôs, o resultado depende da capacidade de interpretar o contexto e fazer os ajustes necessários. “Eu tenho que saber qual robô eu vou utilizar para poder obter lucros e ganhos”, conclui.
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Automação como virada
Depois da perda milionária e do impacto emocional que ela provocou, a automação deixou de ser apenas uma alternativa e passou a ser uma necessidade operacional. A tecnologia virou uma forma de reduzir o peso das emoções nas decisões. “Eu gosto mais da automação porque como é um robô, ele consegue me dominar mais”, afirma.
A escolha por utilizar robôs já validados também está ligada à sua rotina como empresário. Com outras demandas profissionais, eficiência operacional passou a ser prioridade. “Como eu não tenho tempo por ter um negócio próprio, eu acabo utilizando robôs terceiros”, observa.
Ainda assim, ele estruturou uma operação relevante dentro do mercado. Hoje, Covas opera cerca de meio milhão de contratos futuros por mês, usando majoritariamente robôs validados.
“Hoje, com o robô, eu opero em torno de 500 mil contratos por mês.”
Há, porém, um ponto que chama atenção em sua abordagem: ela vai na contramão do que muitos desenvolvedores costumam recomendar.
Enquanto parte do mercado defende que o operador não interfira no robô, ele adapta os parâmetros conforme o cenário.
“Eu posso aumentar o stop, diminuir o stop, dizer quantos pontos eu quero que ele entre”, explica.
Esse controle exige leitura constante de mercado e decisão ativa. A automação, portanto, não elimina o operador — apenas redefine seu papel. “Não dá para deixar ele rodando 24 horas.”
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Do investimento ao trade
A entrada no mercado aconteceu de forma estruturada, com prioridade para segurança antes da tomada de mais risco. A evolução foi gradual até o contato com operações mais sofisticadas.
Segundo ele, o começo foi na renda fixa e, durante o período da pandemia, passou a pesquisar sobre mercado de opções.
Os primeiros resultados positivos reforçaram o interesse pelo trading ativo. Segundo ele, observar outros operadores ampliou sua visão sobre o mercado.
“No mercado de opções, eu consegui ter bons êxitos em relação às opções e comecei a ver outras pessoas operando opções e comecei a gostar”, relembra.
A transição para o day trade, porém, trouxe um desafio central: o controle emocional.
A execução, segundo ele, passou a ser afetada diretamente pelo comportamento. “O trader tem que ter um emocional muito grande.”
A dificuldade em respeitar o timing e a disciplina operacional passou a ser recorrente. O excesso de entradas, por sua vez, comprometia os resultados.
“Eu queria entrar toda hora e não era essa a intenção”, admite.
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Carteira e alocação
Mesmo com a evolução para operações mais dinâmicas, a construção da carteira manteve uma lógica conservadora e equilibrada.
O trading passou a ocupar apenas uma parte do capital, enquanto a maior parcela permaneceu alocada em ativos de longo prazo. “Hoje 80% do meu investimento é a longo prazo”, afirma.
A diversificação também se tornou um pilar importante da estratégia, combinando diferentes classes de ativos para reduzir risco. Segundo ele, a exposição ao mercado foi construída de forma gradual e consistente ao longo do tempo.
“Minha carteira contém renda fixa, algumas outras rendas um pouco mais agressivas, ações, ouro, alguma coisa de criptomoeda também.”
Assim, o trading segue como uma frente complementar dentro da carteira, com foco maior em oportunidades de curto prazo. “E 20% eu utilizo para o trader”, reume.
Confira mais conteúdos sobre análise técnica no IM Trader. Diariamente, o InfoMoney publica o que esperar dos minicontratos de dólar e índice.
Os bonds da Aegea Saneamento estão sob pressão nas últimas semanas depois que a companhia adiou a publicação de seu balanço do quarto tri múltiplas vezes — levantando especulações no mercado e gerando o rebaixamento de sua nota de crédito pelas agências de rating.
A situação tem atraído atenção para um dos maiores players de infraestrutura do Brasil num momento em que a Aegea se prepara para um IPO na próxima janela de mercado.
A companhia — que é controlada pelo grupo Equipav e tem entre seus acionistas o GIC, com 34% do capital, e a Itaúsa, com 13% — também é uma das empresas avaliando a privatização da Copasa.
Pessoas a par do assunto disseram ao Brazil Journal que os adiamentos do balanço têm a ver com a KPMG, que audita a companhia há dois anos.
A auditoria mudou recentemente sua interpretação sobre diversos temas contábeis da DRE da empresa — o que levou à reabertura dos balanços da companhia desde 2020.
Uma dessas fontes disse que o impacto contábil dessas revisões é na “casa dos bilhões”, mas que não há nenhum efeito caixa, sendo questões “puramente contábeis.”
Segundo esta fonte, as revisões envolvem questões como “o reconhecimento de receita em algumas concessionárias, os provisionamentos em outras, e a forma como a empresa contabilizava os juros da outorga.”
Essa fonte disse ainda que, financeiramente, a companhia está numa posição “muito sólida,” com mais de R$ 5 bilhões no caixa da holding e sem grandes vencimentos no curto prazo.
As incertezas dos múltiplos adiamentos do balanço geraram efeitos nocivos para o crédito da companhia.
A S&P e a Fitch rebaixaram recentemente a nota da Aegea para níveis especulativos (junk) e colocaram a empresa em observação para possíveis novos rebaixamentos.
A S&P também alertou que a Aegea tem até hoje, dia 10, para publicar seus balanços, sob pena de declaração de um evento de default em algumas de suas debêntures, o que por sua vez poderia acionar cláusulas de cross-default nos bonds listados no exterior.
Uma equipe de contabilidade da KPMG está alocada na Aegea, correndo contra o tempo para entregar os balanços ainda hoje, disse uma das fontes.
As debêntures que seriam impactadas por esse evento de default somam ao redor de R$ 500-700 milhões. Uma das alternativas seria a Aegea usar seu caixa para quitar essas dívidas antes que o vencimento antecipado seja declarado (evitando o cross-default), disseram pessoas a par dos planos da companhia.
A KPMG, que auditou os balanços do Banco Master até dezembro de 2024, está sob escrutínio por não ter sinalizado nenhum problema nos números, o que levou a um maior envolvimento da matriz na operação brasileira. É este cenário que parece ter levado a empresa a ser mais conservadora na auditoria dos balanços de seus clientes, segundo uma das fontes.
O sócio responsável por auditar o balanço da Aegea foi substituído logo após a emissão do último bond da companhia, em setembro, quando a Aegea captou US$ 750 milhões com um green bond.
Os bonds da Aegea com vencimento em 2036 — que são os mais líquidos — estão sendo negociados hoje perto de 70% do valor de face. No fim de março, eles eram negociados a 92%. Já os títulos com vencimento em 2029 e 2031 foram negociados hoje perto de 80% do valor de face.
SÃO PAULO, 10 Abr (Reuters) – Uma eventual confirmação da intenção do governo brasileiro de elevar a mistura de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%, ainda neste primeiro semestre, viria em um momento oportuno, já que a indústria está no caminho de uma produção recorde.
Embora a safra de cana-de-açúcar 2026/27 do centro-sul tenha começado no início deste mês, o setor teria tempo de ajustar o ‘mix’ da matéria-prima — também usada para açúcar– e produzir volumes ainda maiores do biocombustível, de acordo com associações do setor e especialistas.
A avaliação vem após o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmar nesta semana que o governo quer aumentar a mistura de etanol na gasolina para 32% ainda no primeiro semestre. O anúncio foi feito em momento em que o Brasil enfrenta desafios na área de combustíveis derivados de petróleo por conta da alta de preço decorrente da guerra no Irã.
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‘É um ótimo momento esta decisão agora, porque estamos no início da safra… as usinas estão no momento inicial de definição do ‘mix’ de produção’, disse analista de açúcar e etanol da consultoria Safras & Mercado, Mauricio Muruci, ao comentar a declaração do ministro.
Um aumento da mistura de etanol na gasolina deverá ampliar o percentual de cana processada para a produção do biocombustível no Brasil. Diante disso, a consultoria estima que o ‘mix’ para etanol subiria para 54%, um ponto acima da previsão antes do anúncio do ministro, versus 51% na safra passada, disse Muruci à Reuters.
Com mais cana sendo destinada à produção de etanol e a continuidade da forte expansão do etanol de milho, o volume total produzido no Brasil poderia ficar entre 44 bilhões e 44,5 bilhões de litros, um patamar recorde, o que seria um crescimento de cerca de 15% em relação à temporada anterior, segundo a consultoria.
Ao final de março, a Safras & Mercado estimou uma produção de 42,5 bilhões de litros, notando por outro lado que as exportações de açúcar do Brasil, maior produtor exportador global, sofreriam forte queda, já que os preços do adoçante têm oscilado perto de uma mínima de cinco anos, sendo menos interessantes para usinas de cana nesse cenário.
‘O momento é oportuno (para elevar a mistura)’, resumiu o sócio-diretor da JOB Consultoria, Julio Maria Borges, considerando os preços baixos do açúcar, além da oferta extra de etanol, com uma esperada recuperação da safra de cana e o avanço da fabricação de etanol de milho.
Mais 4 bi litros
Associações setoriais, como a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) e a União Nacional do Etanol de Milho (Unem) destacaram que o segmento está preparado para elevar a oferta com uma mistura maior, que demandará produção adicional estimada em 2 bilhões de litros.
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Ainda assim, o setor seria capaz de manter a oferta em condições adequadas para os consumidores, mesmo com um mercado de derivados de petróleo com preços altos pela guerra.
‘Em março de 2026, o etanol protegeu o consumidor brasileiro. Enquanto a gasolina acompanhou a alta do petróleo nos mercados internacionais, o biocombustível manteve os preços estáveis nas bombas’, disse a Unica, em nota à Reuters. Na semana passada, o preço do etanol na usina registrou queda no principal Estado produtor, São Paulo.
A Unica disse que está acompanhando o processo regulatório conduzido pelo Ministério de Minas e Energia e que pode colaborar com as próximas etapas para a implementação da medida. Silveira declarou nesta semana que estudos devem ser concluídos nos próximos 60 dias.
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A Unica sinalizou que não deve haver problemas de oferta no Brasil, já que espera uma produção em 2026/27 no ‘maior volume da história, com expansão estimada em cerca de 4 bilhões de litros’.
A Unem foi na mesma direção, dizendo que apenas a produção de etanol de milho deverá crescer 2 bilhões de litros, o mesmo volume estimado para a demanda crescer no caso de uma alta na mistura de dois pontos percentuais. A entidade estima que fabricação do biocombustível do cereal deve atingir 12 bilhões de litros em 2026/27.
‘Ou seja, para suprir essa demanda adicional bastaria a metade do que o setor (milho e cana) está crescendo nesta safra que se inicia agora, em relação à safra passada’, disse o diretor de Relações Governamentais e Sustentabilidade da Unem, Thiago Skaf.