Nos últimos anos, temos assistido a uma mudança profunda no setor automotivo global, impulsionada por uma combinação de inovação tecnológica, mudança de comportamento do consumidor e uma nova força competitiva vinda da Ásia: as marcas chinesas. Se antes eram vistas com desconfiança, hoje essas empresas ocupam posições estratégicas nos mercados globais — inclusive no Brasil.
A Evolução da Percepção
Por muito tempo, o consumidor ocidental via os carros chineses com ceticismo: qualidade duvidosa, baixo valor de revenda e pouca confiabilidade. Essa percepção, no entanto, mudou radicalmente. As marcas chinesas investiram pesado em design, segurança, conectividade e, sobretudo, em eletrificação.
Hoje, montadoras como BYD, Chery, Great Wall Motors e NIO são sinônimos de inovação e custo-benefício. Muitas delas já superam marcas tradicionais em vendas de veículos elétricos e híbridos, principalmente nos mercados europeu e latino-americano.
Foco no Consumidor e no Produto
O sucesso das montadoras chinesas não se deve apenas ao preço competitivo. Elas entenderam rapidamente as novas demandas do consumidor: carros conectados, sustentáveis, acessíveis e com tecnologia de ponta. Isso é especialmente evidente na forma como seus modelos vêm equipados de série com itens que, em outras marcas, são oferecidos apenas nas versões mais caras.
Além disso, as marcas chinesas têm investido em experiência de compra e pós-venda, algo essencial para fidelizar o consumidor brasileiro, que é cada vez mais exigente.
A Chegada ao Brasil
No Brasil, a presença das marcas chinesas já é visível nas ruas e nas concessionárias. A Caoa Chery, com produção local, consolidou-se como uma das principais marcas emergentes no país. Já a BYD, que iniciou a venda de veículos 100% elétricos, avança rapidamente com planos de instalar fábricas, centros de distribuição e até mesmo um ecossistema completo de mobilidade elétrica.
Em 2024, a BYD ultrapassou a Tesla em vendas globais de carros elétricos — um marco histórico que sinaliza não apenas a força da empresa, mas também a mudança no equilíbrio de poder no setor automotivo.
O Comportamento do Novo Consumidor
A ascensão das marcas chinesas também reflete uma transformação no comportamento do consumidor. Hoje, o consumidor busca mais do que status. Ele quer eficiência, tecnologia, sustentabilidade e transparência. E as marcas chinesas entenderam isso muito bem.
Além disso, os consumidores da geração Z e millennials — nativos digitais — são mais receptivos à inovação e menos apegados a marcas tradicionais. Isso favorece a entrada de novos players no mercado.
Desafios e Oportunidades
Apesar do crescimento, ainda existem desafios a serem superados: a infraestrutura de recarga para veículos elétricos, o acesso a peças e assistência técnica especializada, além do trabalho contínuo de fortalecimento da imagem de marca.
Por outro lado, há grandes oportunidades. O Brasil é um mercado com enorme potencial para a eletrificação da frota, e os consumidores estão cada vez mais abertos a testar novas marcas, principalmente se oferecerem uma boa relação custo-benefício.
Considerações Finais
Estamos diante de uma nova fase da indústria automotiva. As marcas chinesas já não são coadjuvantes — estão na linha de frente, redefinindo padrões e forçando o mercado tradicional a se reinventar.
Para o consumidor, isso significa mais inovação, mais opções e, principalmente, mais poder de escolha. E para o setor de varejo automotivo, um convite à transformação e à adaptação rápida às novas dinâmicas de mercado.
José Marques
Especialista em comportamento do consumidor e mercado de varejo