No Meta Festival, evento anual promovido pela Meta, a Talk – consultoria especializada em cultura e comportamento do consumidor – apresentou quatro tendências que deverão pautar o consumo em 2026.
O ponto de partida para essa reflexão foi o reconhecimento do cenário turbulento atual. Conflitos geopolíticos, tensões sociais e o avanço acelerado da Inteligência Artificial moldam um presente instável, que pressiona marcas e consumidores a se adaptarem rapidamente.
Nesse contexto, João Cavalcanti, cofundador da Talk, provocou a plateia: “O real está ficando cada vez mais artificial, e o artificial cada vez mais real”.
Para ilustrar, ele citou o caso recente de Luciano Huck, que usou IA generativa para criar imagens de si mesmo no espaço.
“Ele nunca saiu da Terra, mas conseguiu lançar um documentário inteiro a partir dessa experiência simulada. Isso mostra como a IA já se entrelaça com a nossa percepção coletiva de realidade e autenticidade”, comentou.
João Cavalcanti, cofundador da Talk.
O especialista compartilhou dados que reforçam a virada cultural. Segundo estudos recentes da Talk, o Brasil já está entre os quatro países que mais utilizam IA no mundo.
Em 2024, seis em cada dez brasileiros testaram ferramentas generativas. Um ano depois, nove em cada dez afirmam ter tido contato com elas – e mais da metade usa diariamente.
Para Cavalcanti, esse salto deixa claro que a IA não é mais um recurso experimental. “Ela entrou de vez na rotina das massas e começa a reconfigurar noções de identidade, conquista e pertencimento”, considerou.
E nesse pano de fundo surgem, os quatro movimentos de comportamento que devem pautar marcas e consumidores em 2026.
1. Microconquistas como nova forma de sucesso
O primeiro movimento destacado pelo executivo é o das microconquistas. Em um cenário econômico adverso, símbolos tradicionais de vitória – como a casa própria – tornaram-se inatingíveis para boa parte dos jovens.
“Hoje, 98% da Geração Z não consegue comprar um imóvel e 60% já desistiu desse objetivo”, apontou Cavalcanti.
Diante disso, o que antes era entendido como grande marco, passa a ser substituído por pequenas vitórias cotidianas: manter a rotina de exercícios, fazer uma viagem curta ou até conquistar momentos de autocuidado.
“Se antes a aposentadoria era vista como um único grande momento no fim da vida, agora surgem as ‘micro-aposentadorias’: períodos de pausa e reinvenção ao longo da carreira”, acrescentou.
Esse novo olhar ajuda a explicar o crescimento de fenômenos como o consumo de pequenos mimos – chocolates premium, drinks especiais, experiências rápidas – e a popularidade de atividades como grupos de corrida, que combinam bem-estar e vida social.
“O que está em jogo é a mudança na régua da conquista. Ela não desapareceu, mas se fragmentou e se adaptou ao presente”, resumiu o cofundador da Talk.
2. Autenticidade fluida
O segundo movimento é o da autenticidade fluida – conceito em que identidade deixa de ser fixa para se tornar múltipla, pública e em constante transformação. Em vez de assumir um único estilo de vida ou grupo social, as pessoas transitam entre diferentes versões de si mesmas: ora mais profissionais, ora mais casuais, explorando hobbies ou estéticas variadas.
“Enquanto outras gerações se prendiam a nichos rígidos, a GenZ assume diferentes estilos e cruzamentos de referências. A identidade hoje é muito mais vibe do que rótulo”, explicou Cavalcanti.
Segundo o especialista, esse comportamento é intergeracional: os Millennials, antes menos flexíveis, estão sendo influenciados a adotar essa fluidez. O fenômeno também se expressa culturalmente, como na estética das “eras” da cantora Taylor Swift, que simboliza a possibilidade de assumir versões diferentes de si mesmo ao longo do tempo.
“Não sou apenas um profissional, sou um ser humano que transita por várias dimensões da vida. Esse é o espírito que conecta a autenticidade fluida às novas gerações”, afirmou.
João explicou que marcas já se conectam a esse movimento por meio de ações que celebram a diversidade de identidades – de campanhas inclusivas da Crocs a iniciativas da H&M no Brasil, que convidaram consumidores reais a protagonizar campanhas mostrando estilos, corpos e estéticas diferentes para reforçar pluralidade e autenticidade.
3. Marcas guiadas pela ficção (Fiction First)
A terceira tendência é a de marcas que se apoiam em narrativas ficcionais e ousadaspara conquistar relevância cultural.
“Estamos em um momento em que campanhas bizarramente ousadas performam melhor do que ações convencionais. Existe espaço para o absurdo, para o surrealismo, e as audiências estão abertas a isso”, destacou Cavalcanti.
Exemplos não faltam: a Gentle Monster, marca de óculos coreana, transformou suas lojas em instalações artísticas surrealistas, enquanto a Louis Vuitton construiu espaços que lembram suas próprias malas icônicas em formato gigante – uma forma de materializar fisicamente símbolos que já fazem parte do imaginário da marca.
No Brasil, empresas como a OLX e a Tim têm apostado em campanhas com humor absurdo e linguagens inusitadas.
De acordo com o especialista, a lógica é simples: “As marcas estão mais caretas do que nunca. Isso abre espaço para narrativas criativas, ousadas e até absurdas, capazes de gerar conexão emocional genuína”.
Essa estratégia, porém, exige coragem para ousar e, ao mesmo tempo, flexibilidade para voltar ao convencional quando necessário – um equilíbrio que Cavalcanti chama de “Lord Brandon”, ou a ousadia pontual que dá fôlego às marcas.
4. Embedded AI: a IA incorporada
O último movimento apontado pela Talk é o da IA incorporada .Se antes a tecnologia estava restrita ao digital, agora começa a se fundir ao físico, transformando experiências de consumo cotidianas.
“A convergência para o digital já aconteceu. Agora entramos em uma era de divergência digital, em que a IA se infiltra no mundo físico, dos eletrodomésticos aos cosméticos”, explicou Cavalcanti.
Casos práticos já aparecem no Brasil e no mundo:
O MadBank, startup brasileira que conecta contas bancárias ao WhatsApp usando IA para facilitar consultas e transações financeiras;
A Electris AI, plataforma que usa Inteligência Artificial para personalizar conteúdos educacionais, responsável por alavancar o desempenho escolar do Espírito Santo do 11º para o 1º lugar nacional;
Marcas globais de cosméticos já usam IA para personalizar fórmulas em tempo real, criando produtos adaptados à pele de cada consumidor;
A Samsung, que lançou uma linha de eletrodomésticos – geladeira, lavadora, purificador – com Inteligência Artificial embarcada.
Para o especialista, esses avanços se refletem também em experiências de varejo, como provadores virtuais capazes de vestir consumidores digitalmente antes da compra física.
“A IA deixa de ser uma camada separada e passa a estar embutida em tudo. Isso cria novas possibilidades, mas também pressiona marcas a oferecer experiências mais úteis e consistentes”, destacou Cavalcanti.
Para ele, a provocação final é clara: “Como cada marca pode guiar seu público nesse mundo cada vez mais ficcional, fluido e incorporado pela Inteligência Artificial?”.
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