Uma das medidas incluídas na controversa “Big Beautiful Bill” do Governo Trump ficou conhecida como a “Trump Bill” – ou “Conta Trump”.
O nome, no entanto, esconde uma ideia muito mais profunda – e que deveria gerar uma reflexão no Brasil.
O conceito, na verdade, nasceu alguns anos atrás.
Em 2019, o empreendedor Brad Gerstner – um investidor em tecnologia – propôs a criação de uma conta de investimentos individual para cada jovem americano, com um aporte inicial de US$ 1.000. Esses recursos seriam investidos integralmente em ETFs replicando os principais índices de ações dos Estados Unidos.
A gestão seria feita por instituições privadas, sem interferência do governo.
A proposta foi inicialmente apresentada ao Presidente Joe Biden, já com o apoio de nomes relevantes como Michael Dell e sua esposa, que doaram incríveis US$ 6 bilhões para a iniciativa. A ideia, no entanto, não avançou naquele momento.
Mais tarde, ao tomar conhecimento da proposta, Donald Trump decidiu adotá-la e incorporá-la a seu pacote legislativo.
Em termos práticos, crianças nascidas entre janeiro de 2025 e dezembro de 2028 teriam direito, inicialmente, a US$ 1 mil como capital inicial depositado pelo Tesouro norte-americano, a ser investido no mercado de ações e retirado apenas quando a criança completar 18 anos.
Contribuições privadas podem ser acrescentadas ao primeiro primeiro aporte, reforçando o impulso inicial ao começo da vida financeira e estimulando a integração das pessoas ao mercado de capitais.
O verdadeiro impacto da iniciativa vai muito além de uma simples poupança para o futuro.
Trata-se de inserir crianças e adolescentes desde cedo no sistema de investimento em grandes empresas — permitindo que participem diretamente da geração de riqueza do capitalismo americano.
Mais que isso: a proposta cria uma conexão concreta entre a população e os benefícios do mercado de capitais — especialmente entre aqueles que hoje não têm acesso a esse universo e que, por isso, podem se mostrar mais vulneráveis a discursos contrários ao capitalismo.
Na prática, esses jovens passam a experimentar ao longo da vida o poder dos juros compostos — o compounding — aplicado ao crescimento das grandes empresas.
A iniciativa já começa a ganhar tração.
Após o anúncio, empresas e empresários passaram a contribuir com a iniciativa. Ray Dalio, o fundador da Bridgewater Associates, está entre os que já apoiaram o movimento, doando recursos para a iniciativa no estado em que mora, Connecticut.
Além dele, outros bilionários americanos vêm adotando seus estados ou cidades natais, complementando o valor inicial das contas — elevando os aportes para US$ 1.200, US$ 1.500, US$ 1.700 ou até US$ 2.000 por jovem.
Este movimento adiciona uma camada ainda mais profunda ao debate.
Nos Estados Unidos, começa a surgir uma discussão relevante: se este modelo de gestão privada de poupança e investimento não poderia inspirar mudanças no próprio sistema de previdência pública — hoje administrado pelo governo. Os potenciais efeitos seriam enormes.
Inevitavelmente, isso nos leva a uma reflexão sobre o Brasil.
E se, em algum momento, conseguíssemos construir uma sociedade mais engajada, que compreendesse e participasse ativamente do capitalismo?
Uma sociedade que não apenas consome, mas investe. Que não apenas trabalha, mas acumula capital. E que, com isso, se beneficia diretamente do crescimento das empresas.
No fundo, trata-se de algo maior: a possibilidade de democratizar o acesso ao capital — e com isso alinhar incentivos entre a sociedade e as empresas ao redor do crescimento econômico.
O Brasil está a poucos meses de uma eleição presidencial. Estimular a observação de boas práticas internacionais, com uma replicação adaptada ao contexto nacional, deveria ser um instinto natural em nossa sociedade.
Se de um lado temos um sistema de pagamentos de classe mundial e capaz de estimular a inclusão financeira dos mais pobres, por outro somos extremamente carentes em taxas de poupança e na utilização de mecanismos de investimento em empresas privadas.
Com a devida adaptação e o engajamento do setor privado, esta poderia ser uma medida simples e efetiva em prol da melhoria da educação financeira no País. As taxas de juros seriam menores a partir da maior poupança, com um impacto transformacional a longo prazo.
Se continuarmos ignorando as boas práticas internacionais, o mês seguirá longo demais para o salário, os gastos não caberão no Orçamento e, para usar as palavras do próprio presidente, o culpado será o governo.
Ainda dá tempo de copiar o que funciona.
Felipe Miranda é economista.
Alexandre Bossi é sócio da Perfin.
Felipe Miranda e Alexandre Bossi