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O novo mapa da relação dos brasileiros com o dinheiro

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A insegurança sempre guiou a relação de atriz Fernanda Torres com o dinheiro. “Eu cresci com meus pais, que viveram por um tempo endividados para fazer teatro”, conta. “Eles pegaram dinheiro em banco e, mesmo quando começaram a se estabilizar, minha mãe acordava todos os dias dizendo: ‘isso não é real’. Eu cresci ouvindo que estávamos à beira da ruína.”

Aos 60 anos, Fernanda diz ainda lutar para confiar que o dinheiro pode, de fato, trazer segurança. “Guardo pensando no dia em que eu não puder trabalhar tanto, mas é difícil acreditar que ele realmente existe. Essa confiança é algo que o brasileiro ainda precisa aprender.”

Ela também compartilha sua mudança de perspectiva em relação ao papel das dívidas na economia. “Sempre achei que um país bom era um país sem dívidas. Até ler a biografia dos Rothschild. Descobri que um país que tem futuro é um país que contrai dívidas, porque tem plano de crescimento. Isso foi uma revolução pra mim. Mas continuo não gostando de dívida”, brinca.

A relação com dinheiro

Fernanda Torres foi uma das convidadas do Itaú Unibanco para compartilhar histórias sobre finanças, em São Paulo. Na ocasião, a instituição também revelou os principais resultados da pesquisa Consciência e prosperidade: a nova relação do brasileiro com o dinheiro, realizada em parceria com o Grupo Consumoteca.

Trata-se de um tema que, no Brasil, como compartilha Fernanda, é cercado de silêncios e inseguranças. Mas, o estudo, que traça um retrato das transformações nos hábitos financeiros dos brasileiros nos últimos 45 anos, mostra que falar sobre finanças nunca foi tão importante. E mais: os consumidores estão atentos a essa relação. Segundo o levantamento, 83% das pessoas buscam novas formas de lidar com as finanças. Elas buscam priorizar a diversificação, a autonomia e estratégias inteligentes de investimento.

Participaram do encontro, além de Fernanda, Michel Alcoforado, sócio-diretor do Grupo Consumoteca, João Araújo, diretor de Estratégia e Ciclo de Vida do Cliente do Itaú Unibanco, a apresentadora Gabriela Prioli, com a mediação de Pâmela Vaiano, diretora de Comunicação da instituição.

“O ‘isso é real’ acabou”

Gabriela Prioli, por sua vez, compartilha uma história marcada pela perda e pela reconstrução. “Meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Ele era quem tinha a renda estável da casa. E, com a morte dele, o ‘isso é real’ acabou. Minha mãe, viúva aos 32, teve que sair para trabalhar e garantir nossa sobrevivência.”

Mesmo hoje, em uma fase de sucesso profissional, Prioli diz ainda sentir medo da escassez. “Por mais dinheiro que eu tenha, mais do que imaginei ter nesta idade, ainda acordo pensando que eu posso acordar amanhã e a tragédia vai ser real.”

A apresentadora conta que o controle financeiro é parte da sua transformação pessoal. “A gente alimenta a ideia de que só precisa olhar para o dinheiro quando falta. Mas é o contrário: quanto mais você ganha, mais precisa entender o que fazer com ele. Liberdade não vem só de ter dinheiro, mas de saber como usá-lo.”

“Preciso morrer com o último centavo”

O antropólogo Michel Alcoforado, sócio-diretor e fundador do Grupo Consumoteca, trouxe um olhar mais filosófico. “Eu tenho uma relação com o dinheiro que parte da ideia de que não tenho filhos, e não quero ter. Isso muda tudo. Penso que preciso morrer com o último centavo.”

Segundo o antropólogo, o dinheiro organiza boa parte das relações sociais e familiares no Brasil. “Quem tem filhos pensa em deixar herança. Quem não tem, precisa lidar com a ideia de que o fim do dinheiro pode coincidir com o fim da vida. É uma relação meio esquizofrênica: guardo demais, gasto demais.”

Alcoforado também destaca que o dinheiro, hoje, é um marcador de identidade. “Nos anos 80, estabilidade significava não passar necessidade. Nos anos 90 e 2000, consumo era sinônimo de inclusão. Hoje, o brasileiro quer prosperar com autonomia, segurança e controle sobre as próprias escolhas.”

Liberdade como propósito

Para João Araújo, do Itaú, liberdade é a palavra que melhor define sua relação com o dinheiro. “Ter o suficiente para me sustentar por um ano me dá liberdade de escolha. Tenho pavor de que o dinheiro me tire essa liberdade”, afirma.

Ele destaca o papel da tecnologia nesse novo cenário. “A tecnologia diminui a vergonha de quem tem pouco e reduz a desconfiança de quem tem muito. Ela é uma parceira enorme, mas não substitui a humanização da conversa. O propósito é ter um banco para cada pessoa, de acordo com seu jeito de se relacionar com o dinheiro.”

Pâmela Vaiano, do Itaú, conta que foi na instituição que sentiu mais liberdade com o dinheiro. “Eu brinco com meu marido em casa e falo, ‘nossa, estou muito pro‘. Hoje, brinquei com vários produtos financeiros no app. Acho que isso, para mim, foi muito importante: ntrar num mercado em que falar sobre dinheiro é mais natural. Porque, na minha casa, nunca foi.”

O novo mapa financeiro do Brasil

A pesquisa do Itaú e do Grupo Consumoteca revela que o brasileiro está repensando sua relação com a prosperidade. O crédito, antes visto como sinônimo de dívida, passou a ser entendido como ferramenta de crescimento. 71% dos entrevistados afirmam enxergar o crédito de forma positiva quando bem utilizado.

Além disso, 78% dizem não sentir desconforto em falar sobre dinheiro, rompendo um tabu histórico. A estabilidade financeira dá lugar ao desejo de autonomia e bem-estar. São conceitos que se apoiam em quatro pilares: controle, resiliência, liberdade de escolha e planejamento.

Essa mudança é especialmente visível entre os jovens: oito em cada dez brasileiros da Geração Z acreditam que terão um padrão de vida superior ao de seus pais. Trata-se de um contraste com gerações anteriores, que priorizavam apenas estabilidade em meio a cenários mais instáveis.

Um novo ideal financeiro

O estudo revela que as mudanças de comportamento financeiro não são meramente geracionais, mas uma transformação que acomete todas as pessoas, independentemente de idade, faixa de renda ou região. Esse novo ideal cultural se reflete também no papel do crédito como um aliado para prosperar.

Além disso, 60% afirmam que considerariam financiar compras se tivessem mais conhecimento sobre o tema. Um contraponto a uma ideia histórica de parte da população que enxergava o financiamento apenas como uma dívida. Cada vez mais, contudo, as pessoas passaram a enxergá-lo como uma alavanca para prosperar.

A postura reflete um comportamento mais racional, que busca equilíbrio entre cautela e oportunidade. Essa mudança aparece também na relação com os bancos. Enquanto no passado as instituições financeiras eram vistas majoritariamente como local transacional e para guardar dinheiro, hoje apenas 22% mantêm essa visão. Em contraste, 41% consideram que o banco possui um papel mais consultivo, como um aliado estratégico para organizar finanças, orientar decisões e apoiar projetos de prosperidade.

IA como copiloto financeiro

A tecnologia também ganhou espaço no debate. Dois em cada três brasileiros afirmam que gostariam de contar com Inteligência Artificial como apoio para decisões financeiras mais conscientes. A preferência é que a IA atue como copiloto, oferecendo relatórios e aconselhamento, sem substituir a autonomia individual.

Entre os recursos mais valorizados estão: relatórios detalhados sobre gastos (37%),assistentes virtuais que ofereçam aconselhamento financeiro (34%), e relatórios automatizados nos aplicativos, demanda ainda mais forte entre a Geração Z (43%).

“É uma revolução silenciosa”, resume Alcoforado. “O dinheiro deixou de ser só uma questão econômica. Ele fala sobre quem somos, o que tememos e o que sonhamos.”

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