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Privatização da Copasa entra na reta final. O diabo são os detalhes

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O processo de privatização da Copasa está chegando aos finalmentes. 

Os interessados foram avisados que devem se preparar para apresentar uma carta-fiança garantindo suas ofertas no leilão de desestatização, e que o documento poderá ser exigido já nos próximos dias.

Essa etapa chegou a ser prevista para a semana passada, mas demandas do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais atrasaram o processo.

Agora, a expectativa entre os bancos que conduzem a transação é de uma retomada esta semana, para que a desestatização aconteça ainda em abril, embora existem dúvidas sobre a viabilidade desse cronograma.

A estatal mineira de saneamento está na mira de pelo menos três compradores potenciais.

A Sabesp deve ir junto com a Equatorial Energia, seu acionista de referência. Aegea e Perfin, que se associaram em outros leilões, estão olhando o negócio separadamente e não farão uma oferta conjunta, fontes próximas dos grupos disseram ao Brazil Journal.

Apesar de haver interessados, o proverbial diabo mora nos detalhes. Os potenciais participantes aguardam definições-chave, como a renovação do contrato da Copasa com Belo Horizonte; a divulgação do prospecto da oferta, com as regras detalhadas do leilão; e o acordo de acionistas que deverá ser assinado pelo eventual investidor de referência. 

“Ainda aguardamos a publicação das regras para entender os tempos e movimentos. Nesse momento o foco é entender as regras,” disse uma fonte de um grupo que olha o leilão. 

“Disseram que o processo voltaria nesta semana, mas vejo com ceticismo esse timing. Acho que junho seria algo mais realista,” disse uma fonte próxima a outra das interessadas.

O Governo Romeu Zema – que tecnicamente acabou na sexta-feira – já aprovou o modelo da privatização, que buscará um investidor estratégico para adquirir pelo menos 30% da Copasa, mas sem descartar uma venda pulverizada das ações no mercado. 

“Na prática, dá pra comparar como sendo um ‘modelo Sabesp’ ou um mais parecido com o modelo Eletrobras,” disse uma fonte que acompanha o processo para um investidor. 

Na privatização da Eletrobras, as ações foram colocadas no mercado numa oferta pública, de forma pulverizada. 

Investidores como o CPPIB e o GIC chegaram a se interessar em ancorar o leilão, mas acabaram ficando de fora quando a forte demanda do mercado puxou o preço para cima. A oferta saiu a R$ 42 por ação, um deságio de 1% ante o fechamento da véspera. 

Na Sabesp, o Governo de São Paulo buscou um investidor de referência para ficar com 15% da empresa e vendeu outro lote de ações em bolsa, pelo mesmo valor.

Só a Equatorial fez uma oferta para ser âncora, com um deságio de 10% frente ao preço de tela na ocasião, a R$ 67.  

Os investidores de mercado que entraram na oferta – tipicamente fundos de ações – puderam comprar o papel no mesmo preço da Equatorial dias depois, quando a diferença para o valor de tela já superava 20%, criando um um verdadeiro “trem da alegria” para os felizardos que conseguiram uma alocação.

Agora, os bancos sinalizaram que estão desenvolvendo um modelo que levaria em conta os “aprendizados” com a oferta da Sabesp e da Eletrobras, para que o estado de Minas “não deixe dinheiro na mesa.” 

“Parece que, se os potenciais investidores estratégicos bidarem baixo, não vão levar. Se o mercado bidar um preço maior que o estratégico, eles devem vender de forma pulverizada,” disse uma das fontes. 

Mas os detalhes ainda não estão claros, e serão cruciais para a definição do vencedor. 

O BTG foi contratado pelo Governo para a modelagem, junto com a Ernst & Young e o Stocche Forbes. 

Os coordenadores da oferta pública são o BTG Pactual (que também liderou a oferta da Sabesp), Itaú BBA, Bank of America, Citigroup e UBS BB.

Na disputa pela Copasa, a Sabesp tem como vantagem competitiva as potenciais sinergias com sua operação de São Paulo, além do acesso a capital mais barato, segundo as fontes.

Já a Aegea vê a Copasa como uma alavanca para aumentar seu valuation e viabilizar seu IPO.

Uma possibilidade, inclusive, é usar a Copasa como veículo para ir à Bolsa: se vencer o leilão, a Aegea poderia buscar convencer os demais acionistas da empresa mineira a fundir a Copasa com a Aegea, fazendo na prática um “IPO reverso,” pessoas a par das discussões internas disseram ao Brazil Journal.

Como a Aegea hoje tem uma alavancagem maior que a Copasa, essa consolidação resultaria numa empresa listada com um nível de endividamento menor, o que inclusive permitiria ao grupo ser mais agressivo no leilão de privatização, segundo essas pessoas. 

Resta entender, porém, se as regras e o acordo de acionistas permitiriam essa consolidação – não à toa há tanta expectativa pela divulgação da documentação detalhada sobre a transação. 

A Perfin, também no páreo, já é um acionista minoritário da Copasa, e é uma gestora com participação minoritária do BTG Pactual.

Outra possibilidade é que o leilão não atraia um player estratégico e as ações sejam pulverizadas entre diversos fundos de investimento.

O setor de saneamento do Brasil atrai forte interesse de estrangeiros com “bolso fundo”, e não seria difícil para eles fechar toda a demanda pelas ações a preço competitivo, notou uma fonte de um grande banco.

Mas a definição das regras do leilão com pouca antecedência pode gerar um desafio de governança para que esses investidores participem, disse uma das fontes.

A equipe de research do Santander avaliou em relatório recente que a privatização terminar sem um player âncora é “um cenário improvável”. O Itaú BBA projetou que o leilão deve ocorrer por volta de abril. 

O eventual investidor estratégico da Copasa teria um lock-up de 100% das ações por quatro anos; e de 50% até 2033 ou até a universalização do serviço. Esse player precisará ter experiência em infraestrutura – não necessariamente em saneamento. 

A Copasa tem valor de mercado de R$ 21 bilhões. O Estado de Minas Gerais detém 50,03% das ações. 




Luciano Costa




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