Vasco Oliveira, fundador e CEO da nstech | Crédito: Vivian Koblinsky/Divulgação nstechPor quase 20 anos, o SaaS clássico dominou a criação de valor em tecnologia, com alta retenção, margens superiores a 80% e crescimento previsível. Em um ambiente de capital barato, isso gerou algumas das maiores empresas da história. Entre 2010 e 2021, índices de software e cloud nos EUA entregaram cerca de 16% a 18% ao ano, mais que o triplo do acumulado do S&P 500 em muitos casos.A partir de 2022 e 2023, duas forças mudaram o jogo de forma irreversível: juros altos, que elevaram o custo de capital e puniram modelos baseados em “grow at all costs”, e a IA generativa, que reduziu o custo marginal de produzir software a patamares próximos de zero.
O software não morreu. O valor apenas migrou, mais uma vez.
A redistribuição histórica de valor no software
Toda queda drástica no custo do software redistribui valor.
Nos anos 1990, quando o software corporativo era caro, o valor migrou para quem controlava dados e fluxos.
Nos anos 2000, com o avanço do open source e da internet, plataformas de distribuição como Google, AWS e Salesforce ganharam protagonismo.
Já nos anos 2010, com a cloud se tornando commodity, venceram os modelos baseados em integração profunda e efeitos de rede, como Shopify, ServiceNow e Mercado Livre.
Hoje, o padrão se repete.
Quem escreve o melhor prompt ou o código mais bonito importa menos. Quem controla o fluxo operacional real importa mais.
A nova segmentação do mercado
Nesse contexto, surge uma nova segmentação.
De um lado, estão os softwares funcionais isolados, caracterizados por ferramentas pontuais, baixa barreira de substituição e compressão acelerada de preço e margem impulsionada pela IA.
De outro, estão as redes transacionais e infraestruturas operacionais, formadas por plataformas que executam transações econômicas reais, acumulam dados contextuais proprietários e se tornam essenciais, com custos de troca extremamente elevados.
É essa segunda categoria que está capturando a maior parte do novo valor.
O que define uma rede transacional forte
Efeito de rede direto, no qual cada participante valoriza a rede para todos
Dados transacionais proprietários e acumulativos relacionados a preço, risco, performance e comportamento real
Centralidade operacional, deixando de ser algo “legal de ter” para se tornar “impossível operar sem”
Expansão natural de receita, incluindo pagamentos, crédito, seguros, precificação dinâmica e automação
Exemplos do modelo em 2026
No setor financeiro: Visa, Mastercard e Stripe Treasury
Em dados financeiros: o Bloomberg Terminal
No e-commerce e fulfillment: Shopify, com pagamentos, crédito e logística, e a Amazon
Nos workflows corporativos: o ServiceNow com agentes de IA
Na América Latina: o Mercado Livre, que evoluiu de marketplace para fintech e logística
Na logística e supply chain: a Wisetech no transporte internacional e a nstech no transporte doméstico de carga, buscando se tornar “rails” do setor
O papel da IA nesse novo cenário
A IA reforça, e muito, as redes transacionais.
Modelos de inteligência artificial estão se tornando commodity, como Grok, Claude, Gemini e Llama, cada vez mais acessíveis.
O diferencial passa a ser:
O acesso a dados operacionais reais e em tempo real
Um contexto transacional rico
A integração nativa com workflows críticos
IA genérica gera insights genéricos. IA combinada a dados de transações reais gera decisões acionáveis e defensáveis.
Agentes de IA e infraestrutura econômica
Há um ponto estrutural que começa a ficar claro: agentes de IA não criam valor econômico real sozinhos.
Para sair da condição de “copiloto inteligente” e se tornar infraestrutura econômica, um agente precisa de três elementos:
Contexto profundo, baseado em dados operacionais reais, históricos e confiáveis
Capacidade de agir, por meio da integração direta com sistemas e fluxos que executam transações
Feedback econômico real, expresso em resultados financeiros concretos, como pagamento, margem, risco e performance
Sem esses três elementos, o agente se torna apenas uma camada de interface inteligente, útil, mas facilmente replicável.
Implicações para valuation
Retenção estrutural, quase como uma utility
Custos de troca extremos
Múltiplas alavancas de monetização
Maior previsibilidade de fluxo de caixa de longo prazo
Múltiplos de mercado consistentemente mais altos
A Visa mantém margens superiores a 60% há décadas. A Shopify viu seu GMV explodir e seu take rate subir com pagamentos e serviços. O Mercado Livre evoluiu de e-commerce para um ecossistema financeiro-logístico completo.
O desafio de construção
Massa crítica inicial, resolvendo o problema do chicken and egg
Confiança e neutralidade percebida
Padronização de dados
Integração profunda por meio de APIs bidirecionais
Governança robusta
Tempo aliado a capital paciente
Quando atinge escala, esse modelo se torna quase inexpugnável, como verdadeiras ferrovias digitais.
Logística: o próximo grande terreno
A cadeia logística global é gigantesca, fragmentada e ineficiente, representando 13% do PIB global.
O próximo passo é a consolidação em redes transacionais que conectam embarcador, transportador, operador, seguradora e banco em um único ambiente e permitem que agentes autônomos operem com capacidade de decisão e execução.
Quem fizer isso primeiro em escala, especialmente em mercados emergentes, criará uma nova camada de infraestrutura essencial.